Especial

A relação da geração Z com o sexo; o que explica a chamada "recessão sexual"

Jovens nascidos entre 1997 e 2012 cresceram hipersexualizados pela cultura pop e pelas telas, definiram novos vocabulários para o desejo e nunca transaram tão pouco, segundo especialistas e pesquisas

interna revista -  (crédito: kleber sales)
interna revista - (crédito: kleber sales)

Os dados são consistentes, vêm de várias fontes e apontam para a mesma direção. Segundo levantamento do Instituto Kinsey, da Universidade de Indiana, com mais de 3.310 pessoas de 71 países, jovens da geração Z relataram ter feito sexo três vezes no mês de janeiro, o mesmo número dos baby boomers. As gerações Y e X registraram média de cinco vezes mensais. Uma pesquisa de 2025 conduzida pelo DatingAdvice.com em parceria com o Kinsey Institute revelou que cerca de metade da geração Z ainda não teve relações sexuais. Outro estudo, da EduBirdie com 2 mil participantes, mostrou que 67% dos jovens preferem uma noite de sono tranquila a fazer sexo, enquanto 64% priorizam manter um emprego seguro e 46% preferem passar um tempo sozinhos a ter relações sexuais.

O fenômeno foi batizado de "recessão sexual" pelo The Atlantic Magazine. Mas o que os números não revelam é o mais importante: o porquê. E quem melhor para responder do que a própria geração.

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Julia, nome fictício, tem 26 anos, é leonina, toma remédio para TDAH desde os 15 e anticoncepcional sem pausa. Ela perdeu a virgindade em 2016, aos 17 anos, e a última vez que transou foi em junho de 2024. Dois anos atrás. "Normalmente, eu transo uma vez a cada dois anos", contextualiza. A razão, ela explica com uma honestidade desconcertante, não é trauma nem doença. "Eu tenho muita preguiça de fazer sexo, então não é algo que eu busque fazer", destaca.  

Julia só teve uma experiência sexual que descreveu como "uau", e foi justamente a última. A partir daí, o critério ficou mais alto. "Eu fiquei mais seletiva. Antes, eu não tinha muito o limiar no sentido de, tipo, ah, vou ficar com fulaninho, vou ficar com esse outro fulaninho aqui. Mas agora, se for para ficar com alguém nesse momento da minha vida, realmente só quero ficar com a pessoa que sei que se eu namorasse com ela, ia gostar."

Ela não sente falta da intimidade, mas admite que sua vida social encolheu. "De 2023 para cá, eu parei muito de frequentar lugares sociáveis, festas, barzinho com amigos. E eu acho que nesses lugares a gente consegue conhecer pessoas que pode se relacionar", afirma. 

João Pedro, 23 anos, nome fictício, tem uma trajetória parecida em alguns pontos. A última vez que transou também faz dois anos, e atribui isso a uma combinação de fatores, como sair pouco, conhecer menos pessoas, e ainda carregar inseguranças. "Eu percebi que a minha relação com sexo era diferente da maioria quando as pessoas ao meu redor começaram a ter relações sexuais e eu não", diz. 

Para ele, o final do ensino médio, marcado pela pandemia de covid-19, favoreceu ainda mais essa decisão. "Nós fomos isolados socialmente de forma obrigatória. E eu não tinha interesse de furar a quarentena para transar", ressalta.

A pandemia como moldura

A pandemia não foi apenas um evento histórico para a geração Z, foi uma moldura formativa. Quem tinha 15, 16, 17 anos em 2020 atravessou os anos em que normalmente começaria a explorar a sexualidade dentro de quatro paredes, em isolamento, com a tela como única janela para o mundo.

A psiquiatra da infância e adolescência Andrezza Brito observa esse efeito no consultório. "Hoje, aparecem mais jovens com dificuldade de iniciar ou sustentar vínculos íntimos, mais do que queixas clássicas de disfunção sexual em si. O que se observa é uma sexualidade mais mediada por telas, com menos experiência prática de interação. Isso aumenta a insegurança e a autocobrança."

Para ela, a equação é mais complexa do que simplesmente "estão fazendo menos sexo". "O que os dados e a prática clínica sugerem não é exatamente uma redução da sexualidade, mas uma mudança na forma como ela é expressa. Observa-se uma diminuição da atividade sexual presencial, porém isso não implica necessariamente menor interesse ou menor vivência da sexualidade", reforça. 

Na prática clínica, os diagnósticos mais frequentes não são disfunções sexuais em si. "Em geral, elas estão associadas a quadros mais amplos, especialmente transtornos de ansiedade — ansiedade social, transtorno de ansiedade generalizada, ansiedade de desempenho — e transtornos depressivos. Na maioria dos casos, a dificuldade sexual é um sintoma, não o diagnóstico. Ansiedade e depressão hoje explicam mais do que qualquer disfunção sexual clássica. O jovem não evita o sexo, ele evita a exposição", observa. 

Quando a tela substitui o corpo

Crescer numa era de hiperssexualização nas redes e, ao mesmo tempo, de cancelamento cultural produziu uma geração que sabe mais sobre sexo do que qualquer outra, e que, paradoxalmente, parece ter mais dificuldade de chegar até ele.

"Esse contexto produziu uma dinâmica paradoxal", analisa Andrezza. "Por um lado, há ampla exposição a conteúdos relacionados à sexualidade; por outro, observa-se aumento do receio de julgamento, erro ou inadequação. Essa combinação pode dificultar o desenvolvimento da identidade sexual, promovendo maior autocensura, insegurança e adiamento de experiências."

A psicóloga sexual Bruna Gund aprofunda a análise a partir do que observa no consultório. Para ela, situationships, ghosting e relacionamentos que existem quase que inteiramente no digital cobram um preço específico na capacidade de se expor presencialmente.

"O repertório que é exigido nas interações virtuais é bastante diferente do tipo de repertório que é exigido nas interações presenciais. Enquanto um término presencial pode exigir mais habilidades de comunicação ou mais destreza em sustentar um contato direto com emoções desafiadoras, o ghosting é um recurso que não exige esse custo. Então, quando uma pessoa não tem a chance de desenvolver as habilidades que são demandadas para os contatos afetivo-sexuais especificamente presenciais, é esperado que os primeiros comportamentos emitidos numa interação presencial não sejam tão versáteis e eficientes", enfatiza. 

João Pedro é direto ao falar sobre o papel da pornografia na sua formação. "Por sermos incentivados desde cedo a consumir pornografia, a percepção masculina, no geral, obviamente, é enviesada e errada. É uma luta diária se desvencilhar disso e, com certeza, afeta a minha relação com o sexo", conta.

Ele também critica o que chama de "cultura de sexo violento" presente não apenas no funk, mas na cultura mainstream em geral. "Em segundo lugar, mas que não considero menos problemático, pelo contrário, há uma exaltação, que considero pedófila, de 'pegar novinha'. Felizmente, com o alcance das redes sociais, sexólogas, psicólogas e outras mulheres podem espalhar o conhecimento sobre o assunto e tentar melhorar a situação", acrescenta.

Resposta fisiológica

A psicóloga Bruna Gund identifica consequências clínicas concretas desse consumo precoce. "Pessoas com pênis que, durante a adolescência, apresentavam respostas de ereção mais rápidas e intensas, com menor necessidade de estímulos subjetivos e sensoriais, podem ter aprendido a associar um estímulo predominantemente visual a uma resposta erétil praticamente imediata. Sendo assim, são pessoas que não aprenderam a diferenciar o desejo subjetivo de sua resposta fisiológica."

Ela também menciona o conceito de "incongruência moral" como base de parte considerável do sofrimento. "A incongruência moral indica uma discrepância entre aquilo que a pessoa consome e aquilo que esta própria pessoa considera saudável, correto, desejável. Isto motiva a busca pelo acompanhamento psicoterapêutico pois tal discrepância promove extrema culpa, vergonha, nojo, autopercepção de incompreensão", explica.

Segundo pesquisas, a geração Z tem transado menos
Segundo pesquisas, a geração Z tem transado menos (foto: Freepik )

O sexo que importa mais 

Nem tudo aponta para uma geração em crise. O relatório de tendências 2026 da britânica Lovehoney, que ouviu mais de 2 mil participantes, define a relação da geração Z com o sexo como "prazer com propósito" e afirma que eles "não está fazendo menos sexo, eles estão fazendo sexo que importa mais".

Segundo o estudo, 51% dos jovens da geração Z se envolvem em atividades sexuais ao menos uma vez por semana, comparados a 57% dos millennials, uma diferença menor do que a narrativa da "recessão" sugere. O que mudou de forma mais significativa é o contexto. Apenas 19% da geração Z conheceram parceiros em festas, contra 26% dos millennials e 42% da geração X. Em contrapartida, 30% conheceram parceiros via aplicativos de namoro.

O menor consumo de álcool também influencia essa mudança. Entre os com 18 e 24 anos, 15% afirmaram não beber, e apenas 49% tiveram experiências sexuais sob efeito de álcool, contra 69% na faixa dos 25 a 34 anos e 74% entre os 35 a 44 anos.

Gabriel, 23 anos, nome fictício, parece encarnar bem essa definição de "prazer com propósito". Ele tem uma vida sexual ativa, mas não sente urgência. "Eu nunca vou a dates apenas por conta do sexo, então, se não rolar, não tem problema nenhum. Normalmente, eu gosto de ir a dates para conversar e conhecer pessoas novas e que eu sinto que se conectam comigo de alguma forma. Se, ao fim do date, rolar um clima e o sexo acontecer, perfeito."

Ele já ficou um mês sem transar e sem sentir falta. Quando questionado sobre o que precisa acontecer para querer transar com alguém, ele é preciso: "Acho que o que mais me gera vontade é a conexão. Mas eu não transo apenas com as pessoas com quem eu me conecto profundamente. Acho que tenho uma necessidade menor do que a maioria das pessoas, mas ela ainda existe."

A tranquilidade dele já foi interpretada de outras formas. "Tive problemas em relação a isso quando estava em um relacionamento mais duradouro, no qual essa tranquilidade foi interpretada como desinteresse. Em um namoro antigo, minha parceira da época chegou a questionar, inclusive, sobre meus hormônios, mas sinto que a falta de vontade dizia mais sobre a relação do que sobre o meu corpo", relata.

Virgindade sem estigma (ou não)

Para Sofia, nome fictício, que tem 20 anos e ainda é virgem, a primeira vez é algo que carrega peso, mas não da forma que se poderia imaginar. Quando perguntada se a sociedade superestima a primeira vez, ela pondera: "Depende muito da forma como você foi criado ou ensinado. Acho que, em geral, alguns subestimam e outros superestimam."

Ela nunca chegou perto de uma situação em que poderia ter "resolvido o assunto". "Ainda não cheguei nesse momento. Acho que antes eu já paro", conta. "Eu ainda não achei a pessoa certa e, para mim, é muito importante", acrescenta.

Murilo, também virgem aos 20, tem uma leitura mais crítica do peso social da virgindade. "Acho que superestimam o quão importante é, mas, ao mesmo tempo, subestimam o peso que é perder a virgindade. Tratam como se fosse uma atividade de uma lista que você tem que cumprir sem se preocupar como ou com quem, o que importa é que você fez."

Para a sexóloga Andrezza Brito, a virgindade em si não configura um problema clínico. "Não há um parâmetro universal que determine o momento adequado para o início da vida sexual. O impacto psicológico, quando presente, geralmente está mais relacionado ao significado atribuído a essa condição, frequentemente influenciado por expectativas sociais e culturais. Muitas vezes, o problema é mais o estigma social do que a condição em si", afirma.

A psicóloga Bruna Gund acrescenta uma camada importante, o perfil de quem mais sofre com esse estigma tende a ser mais religioso e mais jovem, o que cria um paradoxo de acesso. "Pessoas que sofrem com essa temática tendem a apresentar um perfil mais religioso, que talvez evite a busca por acompanhamento psicoterapêutico focado na sexualidade por receio de que suas crenças religiosas sejam incompreendidas e invalidadas", destaca.

Adoecimento ou transformação?

No fim, a pergunta que paira sobre toda essa conversa é a mais difícil: a geração Z está doente ou está mudando as regras? Andrezza Brito recusa o diagnóstico fácil. "Não se trata, de forma geral, de um 'adoecimento coletivo', mas de uma transformação cultural que pode assumir significados distintos a depender do contexto individual. O ponto central, do ponto de vista clínico, permanece sendo a qualidade da relação do indivíduo com sua própria sexualidade, especialmente a presença ou a ausência de sofrimento e prejuízo funcional."

Bruna Gund aponta para o que talvez seja o maior avanço dessa geração: o vocabulário. "Esse letramento contribui para que a geração Z tenha maior contato e validação das nuances de suas experiências afetivas e sexuais. Pessoas que não se encaixam necessariamente nas prescrições normativas sobre gênero e sexualidade conseguem elaborar suas percepções com maior refinamento, encontrando comunidades de apoio", observa.

João Pedro, que não transa há dois anos e pensa muito sobre o assunto, resume sua visão com uma clareza que talvez seja o maior sinal de saúde dessa geração: "Antes, achava que era algo de outro mundo, mas vejo que é algo natural e que deve ser um momento de prazer, de alegria. Falar é mais fácil do que fazer, mas tento manter esse pensamento".

E Julia, que prefere preguiça a performance e seletividade a quantidade, fecha com a frase que talvez defina melhor do que qualquer estatística o que está acontecendo."Se não for para ser daquele jeito, pra quê?"

Talvez a geração Z não esteja em recessão sexual. Talvez esteja, finalmente, aprendendo a querer só o que vale a pena.

 

 

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postado em 17/05/2026 06:00
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