
Nesta semana, vi uma série de postagens sobre o Dia das Crianças e fiquei pensando: quantas daquelas pessoas, que esbanjam carinho na homenagem a meninas e meninos, também costumam machucar filhos, enteados ou quem esteja sob a sua responsabilidade, em nome da "disciplina"? Para muita gente, espancar não é uma violência, é uma forma de "educar".
Essa visão cruel e distorcida da realidade — mas que segue arraigada neste país — foi comprovada por um estudo recente do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Conforme o levantamento, pais e mães dizem que bater é a melhor forma de corrigir um comportamento inadequado da criança.
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Não consigo conceber como surrar seres humanos indefesos, causar-lhes dor, pode ser uma coisa boa. Como alguém pode ter essa capacidade? Vejo a agressão a uma criança como um ato de covardia, que se torna ainda mais perverso quando praticado por quem deveria protegê-la. Mas é justamente o que mais acontece. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que, em 2025, mais de 60 mil casos de maus-tratos ou de lesão corporal em contexto de violência doméstica contra crianças e adolescentes foram registrados no Brasil, um aumento de 106% comparado ao ano anterior. Se levarmos em conta que há subnotificação, esse número é muito maior.
Os abusos físicos e psicológicos ferem a dignidade de crianças e podem impactar a saúde física e mental delas pelo resto da vida. Além disso, elas aprendem que a violência é o meio de resolver conflitos e diferenças.
Segundo ainda o estudo do Unicef, há um entendimento de que a criação de uma criança cabe exclusivamente à família, e que outras pessoas não devem interferir. Essa é outra crença entranhada por aqui, de que pais ou responsáveis têm o direito de impor castigos físicos ou psicológicos para "disciplinar". Não têm, de jeito nenhum.
Crianças sendo machucadas é um problema público, não privado, diz respeito a todos nós. Cessar o sofrimento delas é da nossa conta, sim. Um dever, na verdade. Os agressores têm de ser denunciados. Os registros podem ser feitos em delegacias; conselhos tutelares; Disque 100; site da Ouvidoria Nacional dos Direitos Humanos (www.gov.br/mdh/pt-br/ondh/), que funciona 24 horas, inclusive em feriados e fins de semana; ou WhatsApp (61) 99611-0100.
Ignorar o sofrimento de crianças e adolescentes é ser conivente. Não há e jamais haverá justificativa plausível para maltratá-los. Eles não são inferiores aos adultos, muito menos propriedade das famílias. Têm o direito de brincar e de desenvolver plenamente suas capacidades, com orientação e afeto de pais ou responsáveis. Têm de ser respeitados, especialmente no processo de educação.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) enfatiza, no Art. 18-A, que eles "têm o direito de ser educados e cuidados sem o uso de castigo físico ou de tratamento cruel ou degradante, como formas de correção, disciplina, educação ou qualquer outro pretexto, pelos pais, pelos integrantes da família ampliada, pelos responsáveis, pelos agentes públicos executores de medidas socioeducativas ou por qualquer pessoa encarregada de cuidar deles, tratá-los, educá-los ou protegê-los".
O processo de educar não é dos mais fáceis, mas a missão de formar cidadãos cientes de seus direitos e deveres passa, especialmente, pelo diálogo e por bons exemplos, nunca por métodos cruéis. Todo dia tem de ser das crianças, tem de ser de zelo pelo bem-estar delas.
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