ARTIGO

Maria Elisa Costa: Brasília como herança e responsabilidade

Maria Elisa carregava um vínculo singular com a cidade. Filha de Lucio Costa, poderia ter permanecido à sombra de uma biografia monumental. Fez o contrário. Arquiteta e urbanista, construiu uma trajetória própria e se tornou uma das mais lúcidas intérpretes de Brasília

Maria Elisa Costa -  (crédito: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)
Maria Elisa Costa - (crédito: Gustavo Moreno/CB/D.A Press)

Por Rogério Carvalho, arquiteto especialista em Patrimônio Histórico

Há pessoas cuja partida modifica a nossa relação com determinados lugares. A passagem de Maria Elisa Costa produz em mim esse sentimento. Brasília permanece a mesma, naturalmente, mas alguma coisa muda quando desaparece alguém que conheceu tão profundamente as razões de sua existência e dedicou parte considerável da vida a defendê-las.

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Maria Elisa carregava um vínculo singular com a cidade. Filha de Lucio Costa, poderia ter permanecido à sombra de uma biografia monumental. Fez o contrário. Arquiteta e urbanista, construiu uma trajetória própria e se tornou uma das mais lúcidas intérpretes de Brasília, não apenas pelo acesso privilegiado à memória do pai, mas pela inteligência com que soube compreender sua obra e colocá-la diante das questões de cada tempo.

Tive a oportunidade de conversar com ela algumas vezes sobre Brasília. Eram conversas que invariavelmente chegavam a uma preocupação comum: o que fazer com esta cidade que herdamos?

A pergunta parece simples, mas não é. Poucas cidades brasileiras estão submetidas a uma tensão tão delicada entre permanência e mudança. Brasília nasceu de um gesto extraordinariamente preciso e, ao mesmo tempo, precisa responder às exigências de uma sociedade muito diferente daquela que assistiu à sua inauguração. Cresceu, adensou-se, expandiu-se para muito além dos limites imaginados em sua origem. Mudaram os modos de morar, de circular, de trabalhar. Vieram novas necessidades, novos interesses e, inevitavelmente, novas pressões sobre seu território.

Era sobre essas coisas que discutíamos.

Não me recordo dessas conversas como quem recupera lições prontas. O que ficou foi algo mais importante: uma maneira de pensar. Maria Elisa não tratava Brasília como relíquia. Sua defesa da cidade jamais me pareceu nostálgica. Havia nela uma consciência muito clara de que uma cidade não sobrevive se for condenada à imobilidade.

Mas também sabia que nem toda mudança significa evolução.

Essa distinção é decisiva.

Há transformações que incorporam o tempo sem destruir a identidade de um lugar. Outras, aparentemente pequenas, rompem relações cuidadosamente construídas e, quando se acumulam, terminam por produzir uma cidade diferente daquela que se pretendia preservar. Em Brasília, uma árvore, um fechamento, uma construção fora de escala, a ocupação indevida de um vazio ou uma alteração aparentemente banal podem interferir numa composição urbana muito maior.

Lucio Costa não desenhou apenas edifícios e vias. Estabeleceu relações.

Entre o construído e o vazio. Entre o horizonte e a arquitetura. Entre o automóvel e o pedestre. Entre a monumentalidade e a vida cotidiana. Entre as árvores e os blocos residenciais. Entre aquilo que deveria aparecer e aquilo que deveria permanecer livre para que o conjunto pudesse respirar.

Talvez seja por isso que Brasília seja tão fácil de ferir e, paradoxalmente, tão difícil de compreender.

Em nossas conversas, voltávamos à necessidade de reconhecer o que é essencial. Antes de perguntar se determinada intervenção pode ser feita, existe uma pergunta anterior: o que se perderá se ela for feita? Parece uma diferença pequena, mas muda completamente a perspectiva. Obriga o arquiteto, o gestor público, o proprietário e a própria sociedade a enxergarem além do objeto isolado.

Maria Elisa possuía essa capacidade rara de enxergar o conjunto.

Maria Elisa Costa, filha de Lucio Costa, em registro de 1957, ao lado de colegas arquitetos da Novacap
Maria Elisa Costa, filha de Lucio Costa, em registro de 1957, ao lado de colegas arquitetos da Novacap (foto: Arquivo pessoal)

E havia uma razão afetiva para isso, certamente. Para ela, Lucio Costa nunca foi apenas um nome da história da arquitetura. Era seu pai. Mas reduzir sua atuação a essa circunstância seria desconhecer a dimensão de seu próprio trabalho. Maria Elisa transformou uma proximidade familiar extraordinária em conhecimento, pesquisa e compromisso público. Poderia ter sido apenas depositária de uma memória. Preferiu ser sua intérprete.

Isso fazia enorme diferença.

Quando falava sobre o pensamento de Lucio, havia a precisão da arquiteta, mas também uma familiaridade impossível de encontrar nos livros. Conhecia os silêncios entre os desenhos, as circunstâncias, as dúvidas, a personalidade daquele homem que, em 1957, desenhou com alguns traços uma cidade que ainda não existia.

Brasília talvez tenha sido uma das últimas grandes manifestações brasileiras de confiança no futuro.

É importante lembrar disso agora.

Em um país que tantas vezes se acostumou a resolver o imediato, Brasília nasceu de uma aposta no que ainda viria. Não se construiu apenas uma capital. Construiu-se a representação física de uma esperança. Pode-se discutir, e devemos discutir, suas contradições, seus limites e tudo aquilo que a realidade posteriormente revelou. Nada disso diminui a extraordinária dimensão cultural daquele gesto.

Maria Elisa sabia disso sem transformar Brasília em mito.

Talvez esteja aí uma das coisas que mais admirava nela. Defender a cidade não significava negar seus problemas. Significava reconhecer que suas imperfeições não autorizavam a destruição de suas qualidades.

Hoje essa distinção é ainda mais necessária.

A preservação de Brasília não pode depender apenas de leis, tombamentos ou da condição de Patrimônio Mundial. Nenhum instrumento jurídico será suficiente se perdermos a capacidade de compreender aquilo que estamos protegendo. Uma cidade pode ser formalmente preservada e, ainda assim, ser lentamente descaracterizada por centenas de decisões aparentemente insignificantes.

É assim que patrimônios se perdem: raramente de uma vez.

Perdem-se aos poucos.

Por isso nossas conversas sobre “o que fazer” nunca foram, para mim, exercícios acadêmicos. Havia nelas um sentido de responsabilidade. Brasília chegará ao próximo século muito diferente da cidade inaugurada em 1960. Isso é inevitável. A questão é saber se, quando esse tempo chegar, ainda será possível reconhecer nela a inteligência espacial que a tornou única.

A passagem de Maria Elisa torna essa pergunta ainda mais urgente.

Desaparece uma testemunha excepcional da aventura humana e intelectual que deu origem à capital. Desaparece também uma voz que, durante décadas, ajudou a lembrar que preservar Brasília exige mais do que admiração por sua arquitetura. Exige vigilância, conhecimento e escolhas.

Fico com a lembrança de nossas conversas e com a sensação de que algumas delas, de certo modo, ainda não terminaram.

Talvez nunca terminem.

As cidades que importam são aquelas que obrigam cada geração a decidir o que deseja transmitir à seguinte. Brasília chegou até nós porque houve quem compreendesse seu valor e se dispusesse a defendê-la. Agora essa responsabilidade é nossa.

Maria Elisa Costa nos deixa uma memória imensa. Mas deixa, sobretudo, uma tarefa.

Cuidar de Brasília sem transformá-la em passado.

Permitir que viva sem permitir que se perca.

E compreender, finalmente, que preservar uma cidade concebida para o futuro é também uma forma de continuar acreditando nele.


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Por Opinião
postado em 25/08/2026 20:45 / atualizado em 25/08/2026 20:48
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