
Depois de semanas de silêncio diplomático e dezenas de contatos sem resultado concreto, a notícia de que o ministro de Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, e o representante comercial americano Jamieson Greer vão se reunir virtualmente na próxima segunda-feira é genuinamente bem-vinda. O encontro, que só se tornou possível após uma conversa de uma hora e 20 minutos entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o mandatário norte-americano Donald Trump, sinaliza que os dois países ainda preferem a mesa de negociação à escalada. Isso importa. Num cenário em que tarifas de até 37,5% pesam sobre parte das exportações brasileiras, qualquer abertura de canal merece ser reconhecida como o que é: um passo na direção certa.
A disposição de ambos os lados também merece crédito. O Brasil manteve o tom técnico e evitou a retórica de confronto que poderia ter encerrado o diálogo antes de começar. Washington, por sua vez, surpreendeu ao responder com agilidade — foi Greer quem procurou o ministro brasileiro após o telefonema presidencial e reabriu a negociação. Quando a maior economia do mundo decide ligar primeiro, algo está funcionando.
A partir daqui, porém, o otimismo precisa ser dosado com cautela. O objetivo imediato do Brasil, de ampliar a lista de produtos isentos das tarifas, é razoável e tecnicamente defensável. Mas negociar com a administração Trump exige memória curta para ofensas e memória longa para promessas não cumpridas. O mesmo presidente que concordou com Lula sobre a necessidade de preservar as relações comerciais é o que impôs duas rodadas de tarifas em sequência, citou o Pix como prática desleal e deixou setores como calçados, máquinas e açúcar sob a alíquota máxima. A imprevisibilidade não é um acidente da gestão Trump: é um método, que ele sabe aplicar muito bem.
O calendário complica ainda mais o cenário. As eleições brasileiras de outubro já começam a contaminar o ambiente político dos dois lados. No Brasil, qualquer concessão feita ao governo Lula vira munição eleitoral, como já demonstrou a participação de Flávio Bolsonaro nas audiências do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) em Washington. Nos Estados Unidos, Trump governa cada vez mais para sua base, e acordos comerciais que possam ser lidos como favoráveis a um aliado de esquerda latino-americano têm pouco apelo doméstico. O risco real é que as negociações técnicas, por mais bem conduzidas que sejam, esbarrem em conveniências políticas que nenhuma boa vontade diplomática consegue superar.
O que se espera, portanto, é que tudo se mantenha estritamente na esfera comercial — longe das narrativas eleitorais, longe das rivalidades pessoais e longe das disputas de palco. O Brasil precisa de segurança e previsibilidade para seus exportadores, e não de mais um capítulo de incertezas. Além disso, qualquer que seja o resultado dessa negociação, que ela sirva também de lembrete: um parceiro que impõe tarifas de 37,5% sobre seus aliados, cita um sistema de pagamentos soberano como prática desleal e muda de posição ao sabor do calendário eleitoral não é um parceiro confiável, mesmo que volte aos melhores termos com o país. A negociação com os EUA de Trump é necessária — mas a diversificação de parceiros comerciais do Brasil é uma pauta ainda mais urgente.

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