
Por Eduardo Bessa, professor da Universidade de Brasília e pesquisador da Rede Biota Cerrado
A cena poderia ser trivial para uma tarde de domingo de agosto em Brasília. À beira de uma avenida explodia em exuberância amarela um ipê contra o céu azul e um horizonte que já começava a ganhar tons de anoitecer. Como era de se esperar, ao redor havia carros estacionados, muita gente e câmeras disparando.
Além do volume de flores, aquele ipê tinha um atrativo a mais porque elas todas já começavam a formar seus cachos desde baixo, à altura das mãos até dos mais pequeninos que rodeavam a árvore. Nos planejamos em família para ir especificamente àquele ipê porque as flores baixas permitiam uma foto mais horizontal, sem termos que olhar para baixo e fotografar a inevitável papada sob o pescoço. Só que ela estava perfeita para algo mais.
Quando chegamos mais perto do fotogênico ipê, próximo a um mercado no Lago Norte, notamos entre o público um senhor muito satisfeito, tesoura de poda em punho, escolhendo os melhores ramos para cortar e levar para casa.
A novidade, que seria um sonho, virava um pesadelo medonho. Nem havia paradoxo entre poetas e esfomeados ali. Éramos todos poetas, a diferença é que a poesia de alguns era inclusiva, coletiva. A do dito senhor era excludente, individual. Para a poesia explodir em exuberância amarela na casa dele, ela necessariamente deixaria de brindar a todos os demais que o queriam nas fotografias.
E não tem sido essa a tônica de muitos dos nossos dilemas? Para que eu tenha o meu transporte individual, seguro e à minha disposição a qualquer hora, relego mais gás carbônico à atmosfera e mais trânsito ao coletivo. Para eu ter o meu banho longo e relaxante preservado, relego ao coletivo a preocupação com os níveis dos reservatórios do Descoberto e de Santa Maria. Ó, mundo tão desigual!
No caso do ipê, o desfecho foi positivo, embora não sem alguma animosidade. A turma da fotografia começou a protestar cada vez mais enfaticamente. Aproveitaram que já estavam com a função câmera à mão e transformaram os celulares em instrumento de justiça, registrando o flagrante do que alguns alegavam ser crime ambiental. O da tesoura ignorou todos os protestos femininos que o cercavam, mas quando um rapaz claramente assíduo na musculação o interpelou, ele magicamente se deu por convencido.
Intimidada, a tesoura de poda se fechou e foi embora com os ramos que já havia subtraído.
As flores dos ipês são fugazes. Vêm e vão em poucos dias como um esforço desesperado da planta de, pelo menos, deixar descendentes, caso a seca dure mais do que elas possam suportar. Aqueles galhos que, despidos de suas folhas, pareciam mortos e secos, reúnem suas forças para produzir flores coloridas em profusão, néctar para atrair as abelhas polinizadoras e reservas energéticas nas sementes para o início da vida de suas descendentes.
Esse néctar e essas sementes ainda são profusamente pilhados, já que muitos animais se alimentam do néctar sem prestar esse serviço da polinização. É comum vermos estridentes grupos de periquitos se saciando do líquido açucarado durante essas floradas. Da mesma forma, formigas comem sementes de ipê aos montes, de forma que só uma porcentagem do esforço reprodutivo das plantas resulta em descendentes.
Por esse esforço ser tamanho, as árvores não conseguem mantê-lo por muito tempo. As flores logo murcham, caem ao chão e a vida retoma seu ritmo normal. Se as flores nas árvores já duram pouco, imagine então arrancadas do pé! A poesia do ipê podado seria fugaz como um Haikai. Quando voltam as chuvas, a planta torna a produzir folhas que sintetizarão energia para que elas cresçam, sobrevivam e se preparem para a próxima seca e a próxima florada. Nesse período, o ipê que deu todas aquelas flores passará despercebido, reformulando sua poesia até o agosto seguinte.
Da mesma forma, nossa capacidade de mobilização existe e está latente em nós. Somos capazes de identificar injustiças e podemos lutar para os direitos coletivos sobressaírem às vantagens individuais. Vai ser bonito ver isso desabrochando de onde menos esperávamos, como uma florada de ipês num agosto qualquer.

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