
Sérgio E. Moreira Lima — embaixador do Brasil na Noruega de 2007 a 2011
A eliminação da Copa do Mundo provoca emoções entre torcedores e ocupa as manchetes esportivas. Passada a disputa, permanece uma realidade mais significativa e duradoura: a extraordinária parceria construída entre o Brasil e a Noruega ao longo das últimas décadas. Poucos brasileiros se dão conta de que os dois países, parceiros multilaterais históricos, criaram uma das relações bilaterais mais abrangentes e bem-sucedidas. Fundada no respeito mútuo, na convergência de interesses e princípios, essa cooperação reveste-se de importância para a Amazônia e seus povos e para o desenvolvimento sustentável, a defesa estratégica do multilateralismo, o combate às mudanças climáticas e o acesso à saúde global. Reflete o compromisso com a transição energética, a segurança alimentar, a economia do mar e tecnologias aeroespaciais limpas.
Entre 2006 e 2011, já era possível avaliar o extraordinário salto nas relações bilaterais. Apesar da população reduzida, com menos de 6 milhões de habitantes, a Noruega saiu de uma posição modesta para se tornar o nono maior investidor direto no Brasil. Cerca de 300 empresas norueguesas aqui se estabeleceram, sobretudo nas áreas de petróleo e energia, mineração e metalurgia (alumínio e bauxita), serviços marítimos, fertilizantes e biocombustíveis. Nesse mesmo período, a Noruega realizou contribuição bilionária ao Fundo Amazônia, viabilizando o projeto que o Brasil havia estabelecido no contexto de sua política de proteção florestal. A assistência norueguesa a países como o Haiti e Guiné Bissau e o mecanismo de ajuda ao acesso universal à saúde global permitiram ao Brasil responder a crises humanitárias e estruturais em circunstâncias difíceis.
No plano empresarial, foram criadas condições para a parceria da Embraer com a empresa de transportes aéreos Wideroe e, mais tarde, com a SAS, o que transformou a Escandinávia num laboratório de testes de propulsão para reduzir emissões de carbono e gerar tecnologias alternativas. Esse processo de aproximação acabaria contribuindo para o Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e a EFTA, bloco econômico europeu integrado pela Noruega, que deverá entrar em vigor ainda este ano e abre perspectivas amplas e promissoras, inclusive para startups brasileiras.
Naquela época, a expansão do intercâmbio universitário coincidiu com o aprendizado na área cultural, especialmente na música clássica com o projeto Villa Lobos para Jovens. O conhecimento mútuo permitiu compreender a evolução e as características das nossas sociedades além dos estereótipos. Em 2010, Limite, de Mário Peixoto, marco do cinema brasileiro, foi lançado no espaço prestigioso da nova Ópera de Oslo, referência arquitetônica da capital norueguesa. A trilha sonora original do filme com composições de clássicos europeus foi substituída por música de percussionistas brasileiros sob a direção do maestro Bugge Wesseltoft. A exibição celebrou a vanguarda da cinematografia brasileira, a preservação dos audiovisuais de importância universal e seu impacto no cinema nacional moderno.
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Nos esportes, especialmente no futebol, a cooperação contribuiu para aprimorar a técnica dos gigantes noruegueses em suas disputas com jovens brasileiros em torneios anuais como a Norway Cup. O fato de não terem perdido para o Brasil em amistosos oficiais e na Copa do Mundo já refletia o amor pelo futebol e a dedicação para superar a habilidade dos visitantes. Prevalecia entre aqueles jovens um sentido de camaradagem e "fair play" qualquer que fosse o resultado das partidas. Na verdade, Noruega e Brasil manifestavam satisfação ao interagir em diversos campos de atividade em prol de objetivos maiores. Essa convivência amigável viria a marcar outros feitos, como a conquista inédita pelo Brasil da medalha de ouro no esqui nas Olimpíadas de 2026, que encheu de orgulho os brasileiros, em especial a nossa comunidade na Noruega, país que se destaca nas competições de inverno.
É comum explicar as relações internacionais a partir de interesses econômicos ou geopolíticos, associando a força de uma nação sobretudo ao seu poder material. A história, porém, demonstra que a influência duradoura de um país cresce também em função de sua capacidade de cooperar. As parcerias estratégicas mais sólidas não se sustentam apenas no poder militar ou na convergência de interesses econômicos. Alcançam sua maior densidade quando interesses nacionais, alicerçados em princípios e valores, convergem em torno de propósitos comuns. Sob essa perspectiva, a relação entre o Brasil e a Noruega constitui exemplo expressivo de como a confiança pode tornar-se um ativo estratégico da política internacional.
Em um século 21 marcado por tensões geopolíticas, fragmentação e desafios globais, essa parceria demonstra que a combinação entre interesses convergentes, compromissos com o direito internacional e cooperação de longo prazo pode fortalecer, simultaneamente, as relações bilaterais e a ordem multilateral. Ela transforma afinidades em cooperação, interesses em parcerias e princípios compartilhados em projetos capazes de produzir benefícios para ambos os países e contribuir para a promoção de bens públicos globais.
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