ARTIGO

Ciência, soberania e o Brasil que queremos

Em um ano em que os brasileiros voltarão às urnas para escolher os rumos do país, o 8 de julho, Dia Nacional da Ciência e o Dia Nacional do Pesquisador, convida a refletir sobre o lugar que a ciência ocupa no nosso projeto de desenvolvimento

Países que investem continuamente em ciência respondem melhor às crises -  (crédito: Freepik)
Países que investem continuamente em ciência respondem melhor às crises - (crédito: Freepik)

Francilene Procópio Garcia presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)

O Brasil celebra em 8 de julho o Dia Nacional da Ciência e o Dia Nacional do Pesquisador, criados em homenagem à fundação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Em um ano em que os brasileiros voltarão às urnas para escolher os rumos do país, essa data convida a refletir sobre o lugar que a ciência ocupa no nosso projeto de desenvolvimento. As escolhas feitas nas urnas em outubro moldarão o Brasil das próximas décadas.

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A SBPC nasceu em 1948 num Brasil que precisava acreditar no futuro. São 78 anos dedicados a defender a ciência como bem público, a universidade como patrimônio da nação e o conhecimento como instrumento de soberania e justiça social. Ao longo de quase oito décadas, ajudou a consolidar instituições como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), participou da construção de políticas públicas e contribuiu para afirmar que ciência não é uma pauta restrita aos laboratórios, mas uma política estruturante do desenvolvimento nacional.

Na ditadura militar, suas reuniões tornaram-se trincheira — um dos poucos espaços em que o pensamento livre resistia ao silêncio imposto. Décadas depois, durante a pandemia de covid-19, a SBPC voltou a mobilizar a comunidade científica em defesa da vacinação, do SUS, das universidades e das políticas baseadas em evidências. A maior emergência sanitária do século deixou uma lição que não podemos nunca esquecer: países que investem continuamente em ciência respondem melhor às crises, protegem mais vidas e recuperam-se com mais rapidez.

Hoje, quando a democracia volta a ser disputada palmo a palmo e o mundo se transforma em velocidade sem precedentes — a inteligência artificial redefine o trabalho, o clima ameaça territórios e vidas, a desinformação corrói o debate público —, a SBPC reafirma seu lugar: ao lado da ciência, da democracia e do povo brasileiro. Os desafios mudaram, mas a ciência tornou-se ainda mais necessária e sua defesa, mais premente. Liderar no cenário global, hoje, significa produzir conhecimento, transformá-lo em inovação e incorporá-lo às decisões públicas.

É nesse contexto que, de 26 de julho a 1º de agosto, Niterói será a capital da ciência brasileira. A Universidade Federal Fluminense (UFF) abrirá suas portas para a 78ª Reunião Anual da SBPC, o maior evento científico da América Latina. Com o tema "Ciência para todos: soberania, desenvolvimento e inclusão", esperamos receber mais de 30 mil pessoas ao longo de sete dias. A entrada é gratuita e aberta a todos.

As reuniões anuais da SBPC, que acontecem ininterruptamente desde 1949, materializam uma característica que acompanha essa entidade desde sua fundação: reunir pesquisadores, estudantes, gestores públicos, artistas, educadores e cidadãos para pensar coletivamente os grandes desafios nacionais. Em tempos de polarização, é também um espaço que promove a troca de ideias, o diálogo entre ciência e sociedade, a busca por consensos.

A programação contempla centenas de atividades. Haverá debates sobre inteligência artificial, biodiversidade e bioeconomia amazônica, reforma tributária, saúde mental, violência urbana e o futuro da democracia. Autoridades públicas, dirigentes de instituições, especialistas e centenas de pesquisadoras e pesquisadores de todas as regiões do Brasil participarão das discussões. A SBPC Jovem e a ExpoT&C aproximarão crianças e estudantes da descoberta científica. É o Brasil que faz ciência de ponta dialogando com o Brasil do futuro.

Em ano eleitoral, a reunião anual também abrirá espaço para o diálogo com candidatas e candidatos. O caderno "Vozes da Ciência", elaborado pela SBPC, resultado de um amplo processo de construção coletiva, apresenta mais de uma centena de propostas para responder a uma pergunta que não pode esperar: que Brasil queremos ser? 

Responder a essa pergunta exige reconhecer que nenhum projeto de país será capaz de enfrentar os desafios do século 21 se o conhecimento permanecer à margem das grandes decisões públicas.

É esse Brasil que a SBPC convida a construir neste mês de julho, no Dia Nacional da Ciência e, daqui a umas semanas, na sua 78ª Reunião Anual. Num tempo em que tanto nos divide, a ciência continua sendo o que nos convoca a pensar juntos. Acreditamos que os melhores projetos de país nascem do diálogo, das evidências e da responsabilidade compartilhada. Porque o território da esperança se constrói onde o conhecimento e o povo se encontram.

 

 

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Por Opinião
postado em 08/07/2026 05:00
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