
De bem ou de mal. Você deve estar em algum desses extremos. A indiferença é improvável. Enquanto escrevo este artigo, a partida do Brasil contra a Noruega, na noite de ontem, ainda não havia chegado ao fim. E como esta Copa do Mundo ensina: o apito final importa muito. Pode parecer controverso, mas não me apego ao desconhecimento do resultado final. Gostaria de lançar luz sobre um fenômeno muito mais interessante: o dia após o jogo.
Talvez, diferentemente da maioria dos garotos, na infância eu não tinha tanto apreço pelas partidas da Copa do Mundo. Lembro como se fosse hoje: o barulho estridente das vuvuzelas me deixava atordoado (e admito que sempre deixará). Tal como o Grinch no Natal, toda aquela afobação me fazia deslocado. A única parte boa, que me encanta até hoje, era a decoração das ruas. Provavelmente, eu mais atrapalhava do que ajudava, mas levava as pinturas do asfalto muito a sério, mesmo voltando para casa com os shorts manchados de tinta verde.
Durante a adolescência, continuei evitando os jogos. Naquela época, contudo, a razão era mais pedante. Imaginava ser aquele cara "descolado" que ignorava o que todos gostavam, o mainstream, e ostentava tendências underground com minha personalidade de vanguarda dadaísta-surrealista. Pois é, adolescência não é fácil.
Depois de adulto, passei a abraçar "o dia após o jogo". Ele ocorre sutilmente durante qualquer campeonato de futebol tradicional, mas ganha uma dimensão gigantesca e uma percepção quase palpável durante a Copa. Trata-se daquelas 24 horas sagradas para digerir a partida, seja na vitória, seja na melancolia profunda da derrota.
Lembro-me de relance do pentacampeonato da Seleção em 2002, quando, no dia seguinte, todo mundo queria imitar o cabelo do Ronaldo Fenômeno. Parecia não existir outro assunto possível na face da Terra. Foi uma sensação parecida, porém inversa, após o fatídico 7 X 1 contra a Alemanha em 2014. Mesmo pesarosa e traumática, a derrota virou o único tópico do dia seguinte.
O pós-jogo, de certa forma, consegue ser até mais divertido do que a partida em si. É a chance que os brasileiros têm de finalmente "entrarem em campo". É o momento de tuitar sobre o que fariam de diferente, cornetar as substituições erradas e participar ativamente daqueles 90 minutos que antes estavam presos na tela.
Acho que, no fundo, a Copa do Mundo é uma oportunidade de esquecer tantas crises, problemas econômicos e decepções do cotidiano. Um pequeno e legítimo momento de festa coletiva, trégua ou mero descanso mental. É a chance romântica de ver o azarão enfrentar os grandes algozes da história e resgatar um orgulho de ser brasileiro que, convenhamos, às vezes é um desafio.
Por isso, após o jogo de ontem, permita-se o luxo de "entrar em campo" você também. Não importa tanto se o Brasil ganhou ou perdeu a partida. Tudo bem, eu sei que, no fundo, importa sim. Mas, mesmo assim, dê seus palpites mais absurdos, escreva textões, discuta com os amigos ou grave um vídeo. No tribunal da cultura popular, o debate de hoje vale muito mais do que a bola rolando ontem.
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