
Daniel A. de Azevedo — professor de geografia política do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB)
É tentador imaginar que a disputa política será definida apenas por indicadores econômicos, alianças partidárias, tempo de televisão, desempenho nas redes sociais ou capacidade de articulação nos estados. Tudo isso importa. Mas, talvez, exista uma camada mais profunda e decisiva: a disputa entre tribos políticas. A palavra "tribo" pode parecer inadequada para descrever sociedades modernas, urbanas, conectadas e formalmente orientadas pela razão. No entanto, é justamente aí que reside o paradoxo. Desde o final do século 19, diferentes pensadores chamaram atenção para os efeitos da modernidade sobre a vida humana: um momento histórico em que a ciência, a razão e o cálculo teriam ocupado um lugar superior ao que antes era explicado pela tradição, religião e experiência coletiva.
Nietzsche, ao afirmar que "Deus está morto", não comemorava simplesmente o fim da religião. Sua frase, muitas vezes mal-interpretada, expressava uma preocupação com as consequências sociais e existenciais da perda de referências comuns. Se os grandes sistemas de sentido deixam de organizar a vida coletiva, o que ocupa esse lugar? Max Weber, provavelmente um dos maiores sociólogos da história, descreveu o avanço da racionalização moderna como um processo de desencantamento do mundo. A sociedade moderna teria produzido sujeitos cada vez mais pragmáticos e especializados, mas também menos conectados a sentidos compartilhados.
O que isso tem a ver com eleições? Muito mais do que parece. A política não pode ser compreendida apenas como uma disputa racional entre propostas de governo. Ela também é uma arena de reconstrução de vínculos, afetos e identidades. Em um mundo no qual antigas formas de pertencimento perderam força, cresce a busca por grupos capazes de oferecer reconhecimento e sentido. A modernidade prometeu indivíduos livres e racionais, porém, muitos desses indivíduos parecem agora procurar, com intensidade crescente, novas comunidades às quais possam pertencer.
É claro que grupos sempre existiram na política. Durante muito tempo, a esquerda se estruturou em torno de uma identidade relativamente clara: trabalhadores, sindicatos, associações, movimentos populares e organizações de base. A política de classe era uma experiência socioespacial concreta. O problema, para esse espectro político, é que parte desse mundo se desfez. A fragmentação do trabalho, a informalidade, a plataformização, o enfraquecimento sindical e a individualização da vida social reduziram a força dessa antiga tribo política.
Diante disso, a esquerda passou a buscar novos sujeitos coletivos. Pautas identitárias, por exemplo, tornaram-se fundamentais para sua reorganização contemporânea. A questão é se esses grupos, por si só, são suficientes para produzir uma maioria política estável ou se permanecem, muitas vezes, restritos a segmentos sociais específicos, com grande capacidade de mobilização simbólica, mas dificuldade de atravessar fronteiras sociais mais amplas. Além disso, para as eleições presidenciais, uma pergunta permanece: políticas sociais serão suficientes para eleger um presidente, mas continuarão ineficazes para reconstruir uma identidade coletiva duradoura em torno de seu partido?
Nesse contexto, uma disputa como a do fim da escala 6x1 ganha importância especial. Ela pode ser lida como tentativa de reconstruir uma linguagem coletiva em torno do trabalho, justamente onde a esquerda perdeu parte de sua antiga força. Não se trata apenas de uma pauta trabalhista, mas de uma tentativa de recompor uma tribo social capaz de reunir pessoas a partir da experiência concreta do cansaço, do tempo, da renda e da vida cotidiana. A questão é saber se essa agenda ajudará, de fato, na reconstrução de uma tribo de classe.
A direita brasileira, por outro lado, parece ter encontrado nos últimos anos uma gramática tribal mais poderosa, construída, em grande medida, em oposição explícita à outra tribo. Nacionalismo e religião funcionam como elementos de agregação, já que a força desses repertórios está justamente em sua capacidade de atravessar antigas divisões sociais. Essas pautas mobilizam trabalhadores formais e informais, empresários, setores populares, classes médias urbanas, eleitores religiosos e pessoas sem identidade partidária definida. A tribo da direita se organiza, sobretudo, por pertencimento moral.
Mario Vargas Llosa refletiu justamente sobre essa tensão entre liberdade individual e desejo de pertencimento coletivo em O chamado da tribo (2018). Seu diagnóstico é útil para pensar nosso tempo: a tribo voltou a chamar. Isso ajuda a explicar por que nacionalismos e movimentos religiosos conservadores crescem em diferentes partes do mundo. Não se trata simplesmente de ignorância, manipulação ou reação ao progresso, como muitos intelectuais, do alto de certo pedestal, tendem a avaliar. Essas forças oferecem uma resposta a uma angústia real: a sensação de desorientação em sociedades fragmentadas. O nacionalismo promete uma comunidade imaginada em larga escala. A religião oferece sentido, disciplina, pertencimento e explicação moral do mundo.
As eleições de 2026, portanto, não serão apenas uma competição entre candidatos. Serão também uma disputa entre formas de pertencimento. Quem conseguirá oferecer uma narrativa capaz de fazer as pessoas se reconhecerem como parte de algo maior? Quem falará ao medo, à esperança, à fé, à identidade e ao desejo de comunidade? O erro está em imaginar que a política pode ser reduzida a planilhas ou slogans. Em 2026, talvez uma das perguntas centrais seja justamente esta: qual tribo terá força suficiente para transformar pertencimento em maioria eleitoral?
Saiba Mais

Opinião
Opinião
Opinião