ARTIGO

Copa do Mundo e a influência nas crianças

Com o encantamento coletivo que acompanha grandes eventos esportivos, cresce a ansiedade de muitos pais em relação ao desempenho dos filhos. É nesse ponto que surge uma armadilha silenciosa: a profissionalização precoce

. -  (crédito:  Minervino Junior CB/DA Press)
. - (crédito: Minervino Junior CB/DA Press)

Anna Dominguez Bohnpediatra com especialização em terapia intensiva pediátrica, síndrome de Down, neurociência e desenvolvimento infantil

 

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O Brasil, frequentemente chamado de país do futebol, é tomado por uma alegria contagiante em épocas esportivas. Quase todos carregam memórias afetivas intensas relacionadas à Copa do Mundo, independentemente da idade. O país vira uma festa: ruas coloridas de verde e amarelo, famílias reunidas e uma torcida que poucos povos conseguem reproduzir com a mesma intensidade. Se esse movimento mobiliza o país inteiro, do Oiapoque ao Chuí, para as crianças ele também produz impactos importantes, tanto positivos quanto negativos, que merecem atenção.

Os benefícios do esporte são amplamente conhecidos. A prática esportiva ajuda a desenvolver disciplina, resiliência, trabalho em equipe e hábitos saudáveis que podem acompanhar o indivíduo por toda a vida. Além da saúde física, o esporte favorece o equilíbrio emocional e a socialização. No entanto, com o encantamento coletivo que acompanha grandes eventos esportivos, cresce a ansiedade de muitos pais em relação ao desempenho dos filhos. É nesse ponto que surge uma armadilha silenciosa: a profissionalização precoce.

Estimular uma criança a treinar de maneira excessiva antes do tempo adequado pode trazer consequências físicas e emocionais importantes. A especialização precoce ocorre quando crianças com menos de 12 anos passam a focar em apenas um esporte durante a maior parte do ano, deixando de lado o brincar livre e a prática de outras modalidades. Entretanto, o anseio dos pais pelo sucesso dos filhos, muitas vezes envolto em uma competição desmedida, cria uma armadilha invisível e silenciosa. Estimular e cobrar desempenho profissional antes do tempo adequado podem trazer consequências orgânicas e emocionais importantes.

Embora pareça um caminho mais curto para o estrelato, a ciência mostra que essa prática envolve riscos sérios. Quando a carga de treinos ultrapassa a capacidade do corpo, especialmente quando o número de horas semanais se aproxima ou supera a própria idade da criança, o risco de lesões aumenta de forma significativa. 

Outro ponto relevante é o burnout, ou esgotamento físico e emocional. Crianças também sofrem com esse tipo de desgaste. Estudos com jovens atletas de alto rendimento indicam que parte deles perde o prazer pela prática esportiva e chega até a rejeitar o esporte que antes amava. Cerca de 70% das crianças deixam o esporte por volta dos 13 anos, e aquelas que iniciam muito cedo, sem espaço para o brincar livre e para a experimentação de outras atividades, tendem a desistir ainda mais cedo.

O isolamento social também é uma consequência frequente desse processo. A rotina intensa de treinos e competições pode afastar a criança do convívio com amigos da escola e de experiências sociais fundamentais ao desenvolvimento emocional, comprometendo habilidades importantes para a vida adulta. Por fim, há a pressão psicológica. A profissionalização precoce impõe uma cobrança constante por desempenho, fazendo com que a criança sinta que precisa vencer a qualquer custo. O esporte, que deveria ser fonte de prazer e descoberta, passa a ser vivido como obrigação e fardo.

A literatura médica é clara ao demonstrar que crianças menores de 12 anos ainda não possuem maturidade física e emocional para suportar treinamentos intensivos comparáveis aos de atletas profissionais. Antes dessa idade, o ideal é estimular diferentes modalidades esportivas, favorecendo uma formação motora ampla e saudável. Alguns sinais de alerta incluem dores frequentes, cansaço persistente, queda de rendimento, alterações de humor, desânimo para treinar, dificuldades para dormir e piora no desempenho escolar.

No fim das contas, o esporte deve ser um espaço de alegria, desenvolvimento, convivência e aprendizado, não apenas um caminho para resultados, medalhas ou carreiras futuras. A infância precisa preservar espaço para brincadeiras, descanso, socialização e prazer.

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Por Opinião
postado em 05/07/2026 06:00
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