
Duas brasileiras estão entre as 100 mulheres reconhecidas pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, sigla em inglês) por suas contribuições aos sistemas agroalimentares e ao desenvolvimento rural. As pescadoras artesanais Joana Rodrigues Mousinho, de Pernambuco, e Luena Maria Ferreira dos Santos, conhecida como Luena Pataxó, da Bahia, integram a lista internacional que destaca mulheres que transformam suas comunidades por meio do trabalho, da liderança e da defesa do meio ambiente.
A iniciativa, chamada 100 Mulheres Heroínas nos Sistemas Agroalimentares e no Desenvolvimento Rural, recebeu mais de 600 indicações de 131 países. As brasileiras foram indicadas pelo Ministério das Mulheres e reconhecidas em uma cerimônia realizada nesta quinta-feira (15/10), em Roma, na Itália, durante o Fórum Mundial da Alimentação (World Food Forum), promovido pela FAO entre 8 e 16 de outubro.
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As duas homenageadas fazem parte do Fórum de Políticas Públicas de Autonomia Econômica e Cuidado com Mulheres da Pesca, Aquicultura Artesanal e Marisqueiras do Brasil. Apesar de terem trajetórias diferentes, Joana e Luena têm em comum a atuação na valorização da pesca artesanal, na ampliação dos direitos das trabalhadoras e na preservação dos conhecimentos tradicionais.
Para o representante da FAO no Brasil, Jorge Meza, o reconhecimento destaca tanto as conquistas individuais das brasileiras quanto a contribuição das mulheres para o desenvolvimento sustentável. “A mulher tem papel fundamental na construção de sistemas agroalimentares e sustentáveis, bem como para a segurança alimentar, o desenvolvimento rural e a conservação dos conhecimentos tradicionais e dos recursos naturais”, afirmou.
A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, também ressaltou a importância de dar visibilidade às trabalhadoras da pesca artesanal e ampliar sua participação nas decisões que afetam suas comunidades.
Joana Mousinho: mais de seis décadas dedicadas à pesca artesanal
Aos 70 anos, Joana Rodrigues Mousinho acumula mais de seis décadas de trabalho na pesca artesanal. Natural de Pernambuco, ela começou a pescar ainda na infância e construiu sua trajetória no Canal de Santa Cruz, em Itapissuma, onde captura peixes, camarões, mariscos e siris, além da atividade pesqueira, comercializa diretamente a própria produção.
Joana está entre as pioneiras no reconhecimento profissional das mulheres que vivem da pesca no Brasil. Foi uma das primeiras brasileiras a obter o Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP) e se tornou a primeira mulher a presidir uma colônia de pescadores, espaço tradicionalmente ocupado por homens.
Ao longo da carreira, Joana passou a defender também a proteção dos territórios costeiros diante dos impactos de grandes empreendimentos. Para ela, o reconhecimento internacional representa um incentivo para que outras mulheres ocupem espaços de decisão.
“Este reconhecimento da FAO incentiva as mulheres a lutar e a participar cada vez mais dos espaços de decisão, porque vemos que estamos ganhando visibilidade. Foi uma conquista, minha comunidade está muito feliz e agradecida”, afirmou.
Luena Pataxó: pesca, cultura indígena e autonomia econômica
Na Bahia, Luena Maria Ferreira dos Santos, de 44 anos, atua na defesa da pesca artesanal e dos direitos dos povos indígenas. Liderança da etnia Pataxó, ela preside a Associação dos Pescadores Indígenas Pataxó (Apip), no distrito de Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, no sul do estado.
Luena também está à frente do Comitê de Relacionamento de Pescadores do extremo sul da Bahia, que reúne oito municípios e 13 associações. Além disso, criou o Grupo de Trabalho Indígena Nacional por meio do Plano Nacional da Pesca Artesanal, iniciativa liderada pelo Ministério da Pesca.
Seu trabalho combina organização comunitária, empreendedorismo e valorização cultural. Sob sua liderança, a associação conquistou melhorias para os pescadores locais, estabeleceu parcerias institucionais e desenvolveu iniciativas voltadas à segurança no mar e à geração de renda para famílias que vivem da pesca, especialmente da captura de camarão.
Ao receber a homenagem internacional, Luena destacou que sua trajetória representa uma luta coletiva, construída ao longo de gerações. “É uma honra ter o reconhecimento internacional da luta do meu povo indígena, que não é de hoje, e é diária. A homenagem não é para mim, estou representando a minha comunidade. Carrego comigo minha raiz e meus parentes indígenas. Somos os guardiões do meio ambiente”, declarou.
Mulheres são essenciais para a segurança alimentar
A iniciativa da FAO busca reconhecer mulheres que contribuem para mudanças positivas e duradouras em seus territórios. A lista reúne trajetórias de diferentes áreas, como agricultura, pesca, aquicultura, empreendedorismo rural, ciência, inovação, conservação ambiental e liderança comunitária.
A participação feminina é fundamental para o funcionamento dos sistemas agroalimentares. De acordo com os dados apresentados pela organização, as mulheres representam 41% da força de trabalho global nesse setor. Elas atuam em diferentes etapas da cadeia produtiva, da produção e do processamento à distribuição e à comercialização dos alimentos.
Apesar dessa contribuição, muitas enfrentam condições precárias de trabalho, acesso limitado a direitos e obstáculos para participar das decisões econômicas e políticas que afetam suas atividades.
Nesse cenário, o reconhecimento de Joana Mousinho e Luena Pataxó chama atenção para o papel das mulheres que vivem da pesca artesanal. Além de garantir sustento para suas famílias e contribuir para o abastecimento alimentar, elas participam da preservação de ecossistemas, da transmissão de conhecimentos tradicionais e da organização de suas comunidades.
*Estagiária sob supervisão de ...
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