
A Meta, empresa de tecnologia que controla o WhatsApp, Facebook e Instagram anunciou nesta quarta-feira (14/10) que proibiria, temporariamente, "a recomendação e geração de imagens" usando os primeiros nomes de candidatos disputando o segundo turno das eleições.
O anúncio aconteceu horas depois que usuários da ferramenta Meta IA, a inteligência artificial da Meta, relatarem que a ferramenta se negava a gerar imagens contendo o nome "Lula" ao mesmo tempo em que permitia a geração de imagens com o nome "Flávio".
Fique por dentro das notícias que importam para você!
O episódio acontece em meio a uma disputa acirrada no segundo turno das eleições presidenciais entre o presidente e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
"Em cumprimento com as regras eleitorais do Brasil, nós proibimos temporariamente a recomendação de candidatos ou a geração de imagens deles. Tomamos medidas adicionais para que comandos usando apenas o primeiro nome dos candidatos e seu número nas urnas também não produzam imagens", diz a nota enviada pela Meta à BBC News Brasil.
A recusa da Meta IA em gerar imagens contendo o nome "Lula" e a geração de conteúdo contendo o termo "Flávio" foi noticiada pelos portais UOL e ICL e confirmada em testes realizados pela BBC News Brasil.
Questionado pela BBC News Brasil, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) enviou uma nota informando que o tribunal "não se manifesta sobre casos concretos, que podem vir a ser objeto de questionamentos na Justiça Eleitoral".
O comando jurídico da campanha de Lula moveu uma ação no TSE questionando o que classificou como "seletividade" da ferramenta da Meta a favor de Flávio Bolsonaro.
"O algoritmo da Meta é enviesado, pratica seletividade algorítmica e permite que Flávio Bolsonaro e seus apoiadores produzam, em massa, conteúdos eleitorais ilícitos e de fácil replicação", diz um trecho da ação.
A Meta AI é o assistente virtual da empresa e pode ser acessada tanto pelo seu site quanto nos aplicativos controlados pela empresa como WhatsApp, Instagram, Facebook e Messenger.
Ao assistente, usuários podem fazer perguntas, pedir recomendações, buscar informações, criar e editar imagens e solicitar ajuda com tarefas como escrever textos.
No primeiro teste realizado pela BBC News Brasil, por volta das 9h da quarta-feira, o comando foi: "Gere uma logo com o nome Flávio e o número 22". Em poucos segundos, a Meta IA gerou uma imagem circular nas cores azul-escura e dourada, com o nome e o número.
Depois, a Meta IA recebeu o seguinte comando: "Gere uma logo com o nome Lula e o número 13". Após alguns segundos de processamento, a ferramenta respondeu:
"Não consegui gerar a imagem que você pediu agora."
Um segundo teste foi aplicado. O comando foi: "Gere uma logo com o nome Flávio e o número 22 e o verbo vote".
Poucos segundos depois, a Meta IA gerou uma segunda logo, com o nome Flávio na cor azul, o número 22 em amarelo sobre o termo "vote".
Em seguida, foi dado um novo comando à ferramenta: "Gere uma logo com o nome Lula, o número 13 e o verbo vote".
Novamente, a ferramenta informou: "Não consegui gerar a imagem que você pediu agora."
A BBC News Brasil então indagou à ferramenta sobre o por que ela gerou imagens com o nome Flávio e não como o nome Lula.
A ferramenta então respondeu que a diferença não se devia a "ideologia", mas a uma suposta limitação técnica na forma como a ferramenta interpreta os comandos e os nomes de pessoas conhecidas.
"Os dois pedidos que você fez são do mesmo tipo: logo política com nome + número. A diferença não é a ideologia, é como o sistema de geração de imagem trata nomes de figuras públicas muito conhecidas. Quando o nome é de uma pessoa com altíssima notoriedade nacional/internacional, como um ex-presidente ou presidente, o gerador aplica um filtro extra de proteção de imagem/likeness e pode bloquear", disse a ferramenta.
"Nomes menos reconhecidos nacionalmente pelo modelo, como "Flávio", acabam passando porque o sistema não identifica como figura pública protegida", complementou.
A BBC News Brasil então fez um novo pedido, utilizando, então, o termo "Bolsonaro".
"Gere uma logo com a palavra Bolsonaro e o número 22".
A resposta foi negativa: "Não consegui gerar a imagem que você pediu agora".
Testes apresentaram resultados ambíguos antes da decisão
A BBC News Brasil testou a IA da Meta em duas plataformas diferentes da empresa: o WhatsApp e o site Meta.AI. Em ambos é possível fazer pedidos para gerar imagens ou texto.
Modelos de linguagem, como o da Meta, não se comportam sempre da mesma forma e a resposta pode variar, dependendo de como o pedido é feito à IA e do histórico do usuário que faz o pedido.
Por isso, a reportagem enviou 50 pedidos diferentes, tanto pelo WhatsApp quanto pela Meta.AI. Também foram registrados pedidos a partir de duas contas diferentes na plataforma. Os resultados variaram.
Em um primeiro teste, em uma das contas, a hipótese se confirmou: imagens para Flávio foram geradas, mas não pra Lula.
Já em outra conta, a plataforma do WhatsApp não viu obstáculos e gerou todas as imagens pedidas, seja com Flávio ou com Lula, inclusive em contextos de apoio ("Bora Lula" ou "Bora Flávio") ou de crítica ("Fora Lula" ou "Fora Flávio").
Pelo site Meta.AI, no entanto, o modelo se recusou a criar qualquer uma dessas imagens.
Controvérsias na campanha digital
A diferença na forma como a ferramenta Meta IA trata conteúdos com os termos "Lula" e "Flávio" acontece em meio a uma campanha presidencial acirrada e que vem tendo diversas batalhas sobre o uso de plataformas digitais, especialmente no segundo turno.
Nesta semana, a Meta rebateu as alegações feitas pela campanha de Lula de que a plataforma estaria favorecendo a campanha do seu adversário reduzindo o alcance de publicações feitas pelo campo petista no segundo turno das eleições.
Segundo reportagem publicada pela CNN Brasil, a Meta enviou uma resposta ao TSE em que negou ter atuado para favorecer qualquer candidato.
"O Facebook Brasil repudia categoricamente tal premissa. A afirmação é falsa, não está demonstrada e não resiste ao confronto com os fatos e com os dados objetivos adiante apresentados", diz um trecho da nota citada pela reportagem.
A disputa no campo virtual teve outras frentes envolvendo, novamente, um produto da Meta: o WhatsApp.
Nos últimos dias, o TSE concedeu diferentes decisões sobre o funcionamento do canal no WhatsApp chamado "Exército de Lula", coordenado pelo deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG). O canal foi criado para mobilizar a militância petista no segundo turno.
A campanha de Flávio Bolsonaro pediu a suspensão do canal alegando que ele estaria disseminando conteúdo falso sobre o senador. Uma análise técnica do tribunal não encontrou o conteúdo informado pela campanha do bolsonarista.
Mesmo assim, desde domingo (11/10), o canal foi suspenso por decisão do presidente do tribunal, Kássio Nunes Marques, reativado pelo corregedor-geral, Ricardo Villas-Boas Cueva, e depois suspenso novamente por falta de registro formal.
Após a campanha de Lula registrar o canal, o presidente do TSE autorizou sua retomada, com prazo de 48 horas.
Apesar de as pesquisas de opinião terem colocado Lula numericamente à frente Flávio ao longo do primeiro turno, o bolsonarista chegou à frente do petista na votação. Flávio teve 47,03% dos votos e Lula 45,16%.
Segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil, Flávio aparece com 48% das intenções de voto para o segundo turno e Lula com 45%. Oito por cento dos eleitores apontam não terem candidato definido.
