
O jovem primeiro-ministro do Nepal, Balendra Shah, um engenheiro e rapper de 36 anos que assumiu o cargo no fim de março, visitou na quinta-feira (27/8) a área da catástrofe na fronteira com a China para acompanhar as operações de socorro e resgate. Pressionado pela instabilidade política crônica do país, Shah procurou mostrar firmeza diante de um desafio inesperado — e de enorme magnitude — a sua capacidade de liderança.
"O governo não permitirá que faltem recursos", assegurou, durante um conselho de segurança que presidiu em um campo de treinamento militar em Bidur, localidade do distrito de Nuwakot. "O governo está com vocês, e vocês não sentirão falta de nada no terreno", prometeu. Antes de retornar para Katmandu, o premiê reuniu-se com funcionários locais, responsáveis pela segurança e representantes comunitários, a quem instruiu para que providenciem assistência aos desabrigados, liberem as estradas e restaurem a infraestrutura no menor prazo possível.
"Ele quer resultados, e rápido", disse a uma emissora de TV, na capital, o chanceler Shisir Khanal. "Está totalmente focado em entregar resultados." O ministro descreveu Shah como um governante "impaciente, efetivo, determinado a prover serviços públicos sem entraves burocráticos".
Gangorra
Por ironia, Balendra Shah tinha sido convocado a comparecer ao Parlamento no dia da tragédia, para responder a questionamentos da oposição, que vinha cobrando a presença regular do chefe de governo para debater com os parlamentares, como previsto na Constituição republicana de 2008 — quando foi formalmente abolida a monarquia. O tema mais imediato e visível foram declarações e iniciativas do premiê no tratamento de disputas fronteiriças com a Índia e das relações com a China, igualmente sujeitas a turbulências.
A trajetória meteórica do jovem governante encarna a gangorra política em que o Nepal se transformou desde a tumultuada agonia no antigo reino, com direito a um massacre de traços shakespearianos no palácio. Eleito prefeito de Katmandu em 2022, o rapper se destacou pelo estilo direto e executivo de governar, muitas vezes sem atenção aos trâmites institucionais.
Em 2025, despontou como a liderança visível de uma rebelião da juventude, a chamada Geração Z, contra a corrupção e as lideranças políticas tradicionais — um mosaico que se estendia de nostálgicos da monarquia até comunistas de distintas vertentes. A onda de protestos derrubou o governo de turno e abriu caminho para novas eleições legislativas, em março passado, em que o Partido Rastriya Swatantra, ao qual se filiou para a disputa, saiu das urnas com uma vitória esmagadora.
Ainda popular entre sua geração, embora enfrente já algum descontentamento, Shah demonstra dificuldade para se movimentar em um cargo que, diferentemente do comando da capital, exige a costura de relações com o Legislativo e inclusive com os caciques do próprio partido — alguns deles de olho em seu gabinete.
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Hamlet no palácio de Katmandu
As turbulências políticas na jovem república nepalesa têm raízes em um episódio que precipitou o fim da monarquia segundo um enredo que parece inspirado na trama talvez mais célebre do dramaturgo inglês William Shakespeare, mestre do teatro dos anos 1600. Em 1º de junho de 2001, o palácio Narayanhiti era residência do rei Birendra, da rainha Ayshwaria e dos filhos. A dinastia Shah tinha o costume de promover um jantar mensal em família, e cabia a Birendra a vez como anfitrião.
Depois de ter sido levado para seus aposentos, sob efeito de álcool ou outras drogas, o príncipe herdeiro, Dipendra, irrompeu no salão armado de metralhadora e fuzilou à queima-roupa o pai, a mãe, irmãos e outros parentes — no total, oito. Ao final, teria disparado uma pistola contra si mesmo, segundo relatos de testemunhas. Hospitalizado, em coma, foi proclamado rei no dia seguinte, mas morreu sem ter recobrado a consciência.
O trono foi herdado, então, pelo irmão mais novo do rei assassinado, Gyanendra — coincidência ou não, o único da família ausente no jantar. Os motivos de Dipendra nunca foram determinados exatamente. Uma hipótese mencionava um profundo desentendimento com os pais quanto à jovem com quem pretendia se casar. Mas a ascensão ao trono do tio paterno evocou o núcleo da trama de Hamlet, o príncipe da Dinamarca às voltas com a vingança contra o tio usurpador que assassinara seu pai.
Para temperar o enredo, circularam versões de uma intriga palaciana em que Gyanendra teria diferenças com o irmão rei: Birendra tinha trocado a monarquia absoluta por um regime constitucional. Também teria favorecido uma abordagem menos drástica para enfrentar a ascensão de uma guerrilha comunista de vertente maoísta que se alastrava pelo interior e ameaçava a capital.
Birendra foi levado a abdicar cinco anos mais tarde, sob protestos populares por democracia e o avanço dos rebeldes. Uma Assembleia Constituinte foi eleita meses mais tarde e os maoístas saíram das urnas em maioria. Em 2008, o Nepal tornou-se oficialmente uma república federativa, com os ex-guerrilheiros à frente do primeiro governo. Desde então, porém, as crises políticas se sucedem a intervalos regulares. A exemplo de Hamlet encenando o fantasma do pai no castelo do tio usurpador, elas hoje assombram o jovem primeiro-ministro Balendra Shah. (SQ)
Pequim atenta ao Tibete
A relativa escassez de informações sobre os desdobramentos das enchentes na fronteira com o Nepal reflete os cuidados do governo de Pequim com o delicado equilíbrio político na Região Autônoma do Tibete. Além da distância geográfica da capital e dos centros políticos e econômicos do país, a terra dos lamas budistas abriga uma resistência persistente da população ao regime comunista, que anexou o território no início dos anos 1950.
O primeiro sintoma das preocupações no núcleo do poder foi a prontidão do presidente Xi Jinping para pronunciar-se sobre a tragédia, um gesto inusual para o chefe de Estado, que reserva a própria figura para situações e acontecimentos de magnitude. Não por acaso, é dele que estão partindo ordens diretas para a resposta à calamidade. Outro sinal de atenção invulgar foi o deslocamento para a região do primeiro-ministro, Li Qiang. Não apenas ele dificilmente viaja tão prontamente para o local de um desastre: ainda mais rara é a visita ao Tibete.
Em um movimento complementar, a direção local do Partido Comunista na região convocou suas bases para que se engajem nos esforços de socorro e resgate, em nome de zelar pela estabilidade e inibir a eclosão de protestos contra o regime. O chamado inclui a orientação aos militantes para que prestem suporte psicológico e emocional aos atingidos, em particular os que perderam familiares. Eles recebem incentivos, mas também a advertência: quem se esquivar da tarefa terá de prestar contas.
O controle estrito se reflete também nas dificuldades para os próprios cidadãos chineses visitarem a região, o que requer um visto especial. O Tibete é praticamente vetado para a imprensa estrangeira, e mesmo os peregrinos nepaleses e indianos que se dirigem aos santuários budistas e hinduístas precisam obter quatro autorizações distintas, uma delas emitida pelas autoridades militares.

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