AÇOUGUEIRO DA BÓSNIA

"Açougueiro da Bósnia": líder de massacre contra crianças morre na prisão

Ex-comandante sérvio-bósnio cumpria prisão perpétua em Haia por genocídio e crimes de guerra cometidos nos anos 1990

O massacre de 8 mil homens e meninos em Srebrenica é considerado o pior crime em solo europeu desde a Segunda Guerra -  (crédito:  Pascal Guyot/AFP)
O massacre de 8 mil homens e meninos em Srebrenica é considerado o pior crime em solo europeu desde a Segunda Guerra - (crédito: Pascal Guyot/AFP)

O ex-chefe militar sérvio-bósnio Ratko Mladic morreu nesta quinta-feira (27/8), aos 84 anos. A morte foi confirmada pela emissora estatal RTS. Mladic ficou conhecido como o "Açougueiro da Bósnia" por seu papel no massacre de Srebrenica, em 1995.

O militar cumpria pena de prisão perpétua em Haia, nos Países Baixos, pelos crimes de genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade, após ter coordenado o Massacre de Srebrenica que, segundo autoridades da Organização das Nações Unidas (ONU), foi um dos mais cruéis crimes cometidos em solo europeu desde a Segunda Guerra Mundial.

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A saúde do General andava debilitada há algum tempo. Nos últimos meses, Mladic sofreu inúmeros AVCs. A família e autoridades estatais sérvias chegaram a apelar pela libertação, devido às questões de saúde, mas os apelos não foram atendidos. 

O Açougueiro da Bósnia

Ratko Mladic tornou-se uma das figuras centrais da guerra da Bósnia, conflito que marcou o desmembramento da antiga Iugoslávia após o fim do regime comunista. Ao lado do ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic e do então líder sérvio-bósnio Radovan Karadzic, Mladic formou a liderança associada a alguns dos episódios mais sangrentos do conflito, entre 1992 e 1995.

A guerra deixou aproximadamente 100 mil mortos e provocou o deslocamento de cerca de 2,2 milhões de pessoas. Entre os episódios mais graves está o massacre de Srebrenica, quando tropas sérvias comandadas por Mladic mataram cerca de 8 mil homens e meninos muçulmanos bósnios que haviam procurado proteção em uma área que deveria funcionar como enclave sob proteção das Nações Unidas.

Mladic afirmava acreditar que havia sido escolhido pelo "destino" para proteger os sérvios de uma ofensiva do Ocidente. A justificativa, entretanto, não impediu que ele terminasse condenado por crimes cometidos durante a guerra. O tribunal responsável pelo julgamento classificou as atrocidades pelas quais foi responsabilizado como "entre os mais hediondos conhecidos pela humanidade".

Foi justamente a atuação de suas tropas em Srebrenica que contribuiu para a consolidação do apelido pelo qual passou a ser conhecido internacionalmente, "o açougueiro da Bósnia". Depois da condenação, Zeid Ra'ad al Hussein, que ocupava o cargo de alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, chegou a defini-lo como "a personificação do mal".

O cerco a Sarajevo

Outro capítulo da trajetória militar de Mladic foi o cerco a Sarajevo, capital da Bósnia. Durante mais de três anos, forças sob seu comando mantiveram a cidade sob ataque, com o uso de atiradores de elite que atingiam moradores nas ruas. Milhares de homens, mulheres e crianças morreram durante o cerco.

Apesar da condenação internacional e das acusações contra ele, Mladic continuou sendo admirado por parte da população sérvia, que manteve uma visão favorável ao ex-comandante mesmo após a revelação de seus crimes e de sua responsabilização judicial.

Infância e liderança militar

Ratko Mladic nasceu em Kalinovik, no leste da Bósnia, durante a Segunda Guerra Mundial. O pai de Mladic morreu nos últimos momentos do conflito, enquanto combatia ao lado do Marechal Tito, líder responsável por manter unida a Iugoslávia, então marcada por uma população formada por diferentes grupos étnicos.

Relatos sobre o período da juventude apontam que a carreira militar já fazia parte de seus planos. No começo dos anos 1960, ele deixou a Bósnia e foi para Belgrado, onde recebeu formação militar. Aos 22 anos, tornou-se oficial e continuou avançando na hierarquia até assumir o comando das forças sérvias da Bósnia durante a guerra.

A carreira foi interrompida em 1996, quando Mladic deixou o posto após ser formalmente indiciado pelos crimes cometidos no conflito. A partir daí, passou a evitar a captura e permaneceu foragido por mais de 16 anos.

Morte de Ana Mladic

A vida familiar de Mladic também foi marcada por uma tragédia. A filha, Ana, morreu por suicídio em 1994, aos 23 anos. Uma das versões apresentadas posteriormente relacionou a morte à vergonha provocada pelos crimes atribuídos ao pai, embora os familiares de Mladic tenham contestado essa explicação.

Antes de ser transferido para o tribunal, Mladic fez um último pedido de visitar o túmulo da filha.

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postado em 27/08/2026 16:39
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