
Remake é escrito por Bruno Luperi, baseado no original do avô, Benedito Ruy Barbosa - (crédito: Fotos: João Miguel Jr./Globo)
Antes do streaming, dos algoritmos e da fragmentação das audiências, houve um autor que insistiu em olhar para um Brasil que a televisão raramente enxergava. Com a morte de Benedito Ruy Barbosa, aos 95 anos, encerra-se um dos capítulos mais importantes da teledramaturgia nacional. O novelista deixa uma obra que atravessa mais de seis décadas e redefiniu a maneira como a televisão retratou o país profundo.
Enquanto muitos autores fizeram das grandes cidades o palco de suas histórias, Benedito preferiu os cafezais, as fazendas, os rios, o Pantanal, as pequenas comunidades e as estradas de terra. Esse Brasil não era apenas um cenário bucólico, mas um personagem vivo. A natureza tinha voz, o ciclo das colheitas determinava o tempo dramático e a disputa pela terra era tão intensa quanto qualquer conflito urbano.
Foi assim em Cabocla, Paraíso, Pantanal, Renascer, O rei do gado e Velho Chico. Em todas elas, a terra nunca era apenas propriedade, mas herança, identidade, memória e destino. Seus protagonistas pareciam moldados pela paisagem tanto quanto pelas escolhas que faziam.
Essa opção estética também era política. Benedito Ruy Barbosa escrevia sobre concentração fundiária, êxodo rural, preservação ambiental, coronelismo e conflitos agrários quando esses temas raramente ocupavam o centro do entretenimento de massa. Era um novelista que não abriu mão do melodrama, e sim fez dele um veículo para discutir o país.
A valorização da memória histórica brasileira também surge como uma contribuição importante. Em Sinhá Moça, o autor revisita a escravidão e o movimento abolicionista sem reduzir o passado a uma sucessão de romances. Em Os imigrantes, Terra nostra e Esperança, transforma o êxodo estrangeiro em uma grande saga nacional, mostrando como milhares de famílias italianas, espanholas, portuguesas e judias ajudaram a construir a identidade econômica e cultural do Brasil. Eram novelas populares, mas também exercícios de reconstrução histórica.
Talvez o maior mérito de Benedito Ruy Barbosa tenha sido compreender que o interior nunca foi periférico. Em suas histórias, o sertão, o campo, o Pantanal, a Amazônia e o Rio São Francisco não existiam como contraponto ao progresso urbano. Eram centros irradiadores de cultura, tradição e humanidade. Ele devolveu protagonismo a personagens frequentemente ignorados pela ficção televisiva: peões, boiadeiros, agricultores, benzedeiras, imigrantes, pescadores e pequenos proprietários.
Musicalidade e silêncios
O texto de Benedito também possuía uma musicalidade própria. Os diálogos respeitavam os regionalismos sem caricatura, o silêncio tinha importância narrativa, a contemplação da paisagem ocupava espaço equivalente ao das grandes reviravoltas. Em um gênero acostumado à velocidade, o autor defendia que o tempo da natureza também podia ser o tempo da dramaturgia.
Não por acaso, muitas de suas obras resistiram ao tempo e ganharam remakes décadas depois. As novas versões encontraram um público diferente, mas confirmaram que seus conflitos permaneciam atuais: a luta pela terra, a preservação ambiental, as desigualdades sociais e a busca por pertencimento continuam atravessando o Brasil contemporâneo.
A morte de Benedito Ruy Barbosa ocorre em um momento de profundas transformações na teledramaturgia, marcada por formatos mais curtos, plataformas digitais e narrativas aceleradas. Ainda assim, o legado do novelista permanece como um alerta de que grandes histórias não dependem apenas de velocidade ou tecnologia, mas, sobretudo, da capacidade de se compreender um povo.
Jornalista e publicitário na origem profissional, Benedito Ruy Barbosa fez exatamente isto: escreveu novelas que ajudaram milhões de brasileiros a reconhecerem sua própria origem na televisão. Quando transformou o interiorzão em protagonista, mostrou que o coração do Brasil sempre bateu muito além dos grandes centros.
Aos amantes da teledramaturgia, fica a saudade, mas também a sorte de termos vivido no mesmo tempo que um grande mestre que, como bem declarou Tony Ramos, era "um brasileiro que espiava sua gente com maravilhosas intenções".
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Por Patrick Selvatti
postado em 08/07/2026 03:30
Diversão e Arte
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