COMPORTAMENTO

O que são os "sites de dopamina" que simulam compras e entregas

Plataformas que simulam toda a experiência de um e-commerce viralizam ao estimular a expectativa da recompensa, mas especialistas alertam para os impactos do uso excessivo

Compras online -  (crédito: Reproduão/Freepik/storyset)
Compras online - (crédito: Reproduão/Freepik/storyset)

Escolher um produto, comparar preços, adicionar itens ao carrinho e acompanhar uma entrega que nunca vai chegar. Essa é a proposta dos chamados "sites de dopamina", plataformas que reproduzem praticamente toda a experiência de uma loja virtual, mas sem qualquer compra real.

O fenômeno ganhou força inicialmente na Coreia do Sul e se espalhou pela internet com sites que simulam aplicativos de delivery e lojas virtuais. O usuário navega por catálogos, lê avaliações, recebe cupons, monta pedidos e acompanha um falso rastreamento de entrega. No fim, nada é pago e nada é entregue.

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Em um dos sites, o Food Only Doesn't Come, o usuário tem acesso ao cardápio, aos preços e pode simular tanto o pagamento quanto a entrega. Nessa última etapa, é possível escolher entre a entrega do coelho — mais rápida — ou da tartaruga — mais lenta. Assim como acontece nos aplicativos de delivery, tanto o restaurante quanto os entregadores contam com avaliações. Após a conclusão do pedido, uma tela permite acompanhar a entrega fictícia, que é finalizada em menos de um minuto.

A ideia por trás dessas plataformas está relacionada à sensação de recompensa despertada durante o processo de consumo. Embora o nome faça referência à dopamina, neurotransmissor associado aos mecanismos de motivação e expectativa, especialistas alertam que o funcionamento do cérebro é mais complexo do que o termo sugere.

 

Sites de dopamina chamam atenção pela recompensa imediata
Sites de dopamina chamam atenção pela recompensa imediata (foto: Reprodução)

A psicóloga Laynara Paiva disse ao Correio que, o simples ato de procurar um produto já mobiliza importantes circuitos cerebrais ligados ao desejo e à antecipação. "O cérebro começa a criar uma expectativa positiva em relação ao objeto desejado, ativando sistemas relacionados à motivação, à recompensa e à tomada de decisão. Muitas vezes, o prazer está menos no objeto em si do que na experiência de imaginar o que ele pode proporcionar", explica.

Esse mecanismo ajuda a entender por que muitas pessoas passam horas navegando por lojas virtuais, mesmo sem intenção de comprar. Para a especialista, esses ambientes digitais acabaram ocupando um espaço semelhante ao das redes sociais.

"Explorar produtos, comparar preços e montar um carrinho já pode gerar sensação de satisfação porque alimenta a expectativa. Para algumas pessoas, isso funciona como uma forma temporária de aliviar ansiedade, estresse ou tédio", afirma.

Expectativa vale mais do que a recompensa

Ao contrário do que muitos imaginam, o momento de maior estímulo cerebral nem sempre acontece quando o produto chega. "As evidências mostram que, em muitos casos, a maior ativação ocorre durante a expectativa. Quando o produto finalmente chega, a satisfação costuma ser mais breve, o que ajuda a explicar por que rapidamente surge o desejo por uma nova compra", destaca Laynara.

Segundo ela, reduzir esse processo apenas à dopamina também é um equívoco. "A dopamina participa desse mecanismo, mas ela não é o 'hormônio da felicidade'. Além dela, diversos neurotransmissores e áreas do cérebro estão envolvidos na regulação emocional, na memória, na atenção e na tomada de decisão", explica.

Para a psicóloga, o sucesso dessas plataformas também reflete mudanças no comportamento da sociedade. "O cérebro responde ao significado emocional da experiência, mesmo quando ela acontece em um ambiente digital. A tecnologia potencializa esse efeito porque foi desenvolvida para ser altamente envolvente, mas isso também revela uma sociedade cada vez mais acostumada a buscar estímulos rápidos e recompensas imediatas", diz.

Embora qualquer pessoa possa se interessar por esse tipo de experiência, ela observa que indivíduos que enfrentam períodos de ansiedade, estresse, solidão ou dificuldades para lidar com emoções tendem a recorrer com mais frequência a essas pequenas recompensas digitais.

Quando o entretenimento deixa de ser saudável

Apesar de os sites funcionarem como entretenimento para muitos usuários, o uso excessivo pode indicar um problema maior. "O principal sinal é observar a função que esse comportamento está desempenhando. Vale refletir se a pessoa está acessando essas plataformas por diversão ou para aliviar emoções difíceis", orienta a especialista.

Ela afirma que a perda da noção do tempo, a necessidade constante de acessar essas experiências, a irritação quando isso não é possível e a sensação de vazio logo depois do uso são sinais de alerta.

Para quem apresenta compulsão por compras, o cenário também exige atenção. Segundo Laynara, simular compras tende a manter ativos os mesmos mecanismos de desejo e antecipação envolvidos no comportamento compulsivo. "Em geral, é mais provável que essas plataformas reforcem esse padrão do que ajudem a controlá-lo. O alívio pode até ser momentâneo, mas não resolve a origem da compulsão", conclui.

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postado em 08/07/2026 17:37
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