
Pesquisadores brasileiros desenvolveram um sensor capaz de detectar alterações nos níveis de dopamina por meio de amostras de lágrimas, iniciando assim o diagnóstico precoce de doenças como parkinson, alzheimer, esquizofrenia e depressão.
Criada por cientistas da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) em parceria com outras instituições, a tecnologia é de baixo custo, rápida, indolor, não invasiva e apresentou boa precisão em testes laboratoriais, podendo futuramente substituir métodos de monitoramento de dopamina (DA) que são considerados demorados ou pouco práticos.
A tecnologia foi descrita em um estudo publicado em 9 de junho na revista científica ACS Omega. O dispositivo tem aproximadamente o tamanho de um selo postal e foi desenvolvido pela equipe liderada pelo pesquisador Neftalí Lênin Villarreal Carreño, do Programa de Pós-Graduação em Ciência e Engenharia de Materiais da UFPel.
“Pretendemos facilitar a detecção ultraprecoce de distúrbios neurológicos, criando oportunidades para intervenções clínicas antes que os sintomas graves se manifestem”, afirma Neftalí á revista ACS Omega.
O sensor é produzido por meio da técnica conhecida como grafeno induzido por laser (Laser-Induced Graphene – LIG). Nesse processo, um laser de CO? transforma uma fina película de Kapton, um polímero amplamente utilizado na indústria, em grafeno, um material altamente condutor de eletricidade.
Por que a dopamina?
A dopamina é um neurotransmissor responsável por funções essenciais do organismo, como o controle dos movimentos, aprendizado, motivação, memória e regulação das emoções. Alterações em sua concentração estão diretamente relacionadas ao desenvolvimento de doenças neurodegenerativas e transtornos psiquiátricos.
No caso da doença de Parkinson, por exemplo, a perda gradual de neurônios produtores de dopamina faz com que os sintomas motores apareçam apenas quando boa parte dessas células já foi comprometida. Por isso, identificar pequenas quedas nos níveis do neurotransmissor pode permitir que médicos iniciem o acompanhamento e o tratamento antes do surgimento dos sinais mais graves da doença.
As lágrimas surgem como uma alternativa promissora porque podem ser coletadas de maneira simples, rápida e sem causar desconforto ao paciente, funcionando como uma fonte de biomarcadores para diversas doenças.
Quando moléculas de dopamina presentes nas lágrimas entram em contato com o eletrodo, elas sofrem uma reação química chamada oxidação. Durante essa reação, ocorre a liberação de elétrons, gerando uma corrente elétrica proporcional à quantidade de dopamina existente na amostra.
As partículas de níquel aceleram essa transferência de elétrons, intensificando o sinal gerado. Ao mesmo tempo, a estrutura altamente porosa do grafeno facilita a captura das moléculas de dopamina, aumentando a sensibilidade do equipamento.
Como consequência, o sensor consegue identificar concentrações extremamente baixas do neurotransmissor, com um limite de detecção de apenas 17,86 nmol/L, permitindo observar reduções discretas que podem indicar o início de alterações neurológicas.
Mesmo na presença de substâncias que normalmente poderiam interferir na análise, como glicose e proteínas, o sensor manteve alta precisão na identificação da dopamina. “Essa capacidade garante que a queda inicial de dopamina de uma pessoa possa ser identificada precocemente, afirma o coautor Lucas Minghini Gonçalves.
Embora o foco principal da pesquisa seja o diagnóstico precoce do Parkinson, os cientistas afirmam que o sensor poderá ser utilizado para monitorar outras doenças relacionadas a alterações nos níveis de dopamina, como esquizofrenia, depressão, doença de alzheimer, e outros distúrbios neurológicos,
Os testes foram realizados utilizando lágrimas e amostras simuladas. Apesar dos resultados promissores, o sensor ainda está em fase experimental e precisará passar por avaliações clínicas.
*Estagiária sob supervisão de Paulo Floro.
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