
Rio de Janeiro — O uso de inteligência artificial já faz parte da rotina de muitos profissionais de saúde, mas ainda avança sem padronização, estrutura adequada ou controle institucional. Durante a 11ª edição do Congresso Internacional Oncologia D’Or – Onco in Rio, realizado nos dias 27 e 28 de março, especialistas alertaram sobre a necessidade de segurança, ética e proteção de dados no uso da tecnologia no país, além de mais controle e regulamentação.
Dados apresentados pela advogada Ana Vassalo, especialista em administração de serviços de saúde pela FGV-SP, indicam que apenas parte dos hospitais brasileiros possuem maturidade digital consolidada. Na prática, isso significa que o uso de ferramentas tecnológicas ainda ocorre de forma fragmentada, sem protocolos claros ou integração entre sistemas.
Segundo Ana, não é possível avançar na adoção da inteligência artificial sem resolver problemas estruturais básicos, especialmente relacionados à qualidade e à proteção de dados. “Não há como falar no uso da IA quando ainda enfrentamos falhas de privacidade e proteção. Muitos dados ainda são físicos ou têm baixa qualidade”, explicou.
A especialista afirma que isso compromete não apenas a eficiência das ferramentas, mas também a segurança das informações dos pacientes, que amplia riscos de vazamentos e ataques cibernéticos.
A especialista destacou, ainda, a legislação europeia sobre inteligência artificial, que deve entrar plenamente em vigor até 2026. O modelo estabelece princípios como confiança, centralidade no ser humano e padronização de regras entre os países do bloco. “A IA precisa ser centrada no paciente e não pode substituir a relação entre médico e paciente”, disse.
A regulamentação também impõe impactos diretos fora da Europa. De acordo com a advogada, empresas e soluções desenvolvidas no Brasil precisarão se adaptar às exigências europeias caso tenham qualquer conexão com o mercado internacional. “Mesmo tecnologias criadas aqui terão que seguir esses critérios se quiserem operar ou se conectar com sistemas europeus.”
Legislação
Na legislação europeia, o setor da saúde é classificado como de alto risco, o que exige regras mais rigorosas para o uso da inteligência artificial. Entre os principais critérios estão a qualidade e confiabilidade dos dados, a supervisão obrigatória por profissionais de saúde, a transparência dos sistemas e a adoção de mecanismos para mitigar riscos.
Outro problema é o armazenamento das informações. Segundo a especialista, não basta digitalizar ou migrar dados para a nuvem. “É fundamental saber onde esses dados estão armazenados e sob quais legislações. Eles precisam estar em ambientes que garantam níveis equivalentes de proteção”, explicou.
Apesar do avanço acelerado da inteligência artificial, ela destacou que a tecnologia deve ser vista como uma ferramenta de suporte à decisão médica, e não como substituta. “A decisão final é sempre do profissional. A IA não dá diagnóstico, ela auxilia.”
Para o doutor em Informática em Saúde e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Informática em Saúde (SBIS), Claudio Giuliano, o uso da IA precisa ser melhor organizado dentro das instituições. O que significa definir responsabilidades, criar regras claras e acompanhar de perto os resultados.
“Não se trata apenas da operação do dia a dia, mas de estabelecer processos controlados para garantir que a IA entregue os resultados esperados. Nem toda aplicação que encanta é prioridade. É preciso avaliar se a solução realmente atende a uma necessidade da instituição”, disse.
Outro destaque é a importância de deixar claro para o paciente quando a inteligência artificial está sendo usada no atendimento. Além disso, é necessário acompanhar constantemente o desempenho dessas ferramentas, para evitar erros ou falhas nos dados.
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O Onco in Rio ocorreu nos dias 27 e 28 de março, na Barra da Tijuca (RJ), e reuniu especialistas do Brasil e do exterior para discutir tendências, desafios e inovações na área da oncologia.

Ciência e Saúde
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