SAÚDE PÚBLICA

Diabetes tipo 5: Brasil prepara rastreio de doença ligada à desnutrição

Nova classificação busca identificar pacientes jovens e de baixo peso que podem ser confundidos com casos de diabetes tipo 1 e precisam de abordagem nutricional específica

O diabetes tipo 5 é a denominação atualmente utilizada para o chamado diabetes relacionado à desnutrição -  (crédito: Unsplash)
O diabetes tipo 5 é a denominação atualmente utilizada para o chamado diabetes relacionado à desnutrição - (crédito: Unsplash)

Uma forma de diabetes associada à desnutrição, descrita há mais de 70 anos, começa a ganhar um novo capítulo no Brasil. O país discute a adoção de um modelo atualizado para rastrear o diabetes tipo 5, classificação reconhecida pela Federação Internacional de Diabetes (IDF) em 2025. A proposta é identificar pessoas que podem estar recebendo diagnóstico e tratamento inadequados por apresentarem características semelhantes às do diabetes tipo 1.

A discussão ocorre nesta semana em reuniões com especialistas em São Paulo e no Rio de Janeiro e deve avançar nesta sexta-feira (28/8), em encontro na Fiocruz-Biomanguinhos. A endocrinologista Hermelinda Pedrosa, titulada pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e vice-presidente da IDF, participa das discussões para definir uma proposta de rastreamento que considere as particularidades da população brasileira.

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Segundo a especialista, o objetivo é tirar a condição da invisibilidade. "Diria que é um 'resgate da invisibilidade' do DM Tipo 5", afirma. Para ela, reconhecer a condição permite que médicos especialistas, clínicos gerais e profissionais da atenção primária consigam diferenciá-la principalmente dos tipos 1 e 2.

O que é o diabetes tipo 5?

O diabetes tipo 5 é a denominação atualmente utilizada para o chamado diabetes relacionado à desnutrição. Não significa, portanto, que uma doença completamente nova tenha surgido. A condição já era conhecida e foi descrita pela primeira vez em 1955, na Jamaica, pelo médico Hugh-Jones. Por isso, chegou a ser chamada de diabetes tipo J.

Em 1985, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu oficialmente o diabetes relacionado à desnutrição em sua classificação. A categoria, porém, foi retirada em 1999 por falta de evidências consideradas suficientes na época.

Segundo a endocrinologista, o assunto voltou a ganhar atenção diante da publicação de novos estudos, especialmente em países do sul da Ásia e da África. Em 2025, durante o Congresso Mundial de Diabetes, em Bangkok, na Tailândia, a IDF oficializou a denominação tipo 5 e criou um grupo de trabalho para desenvolver critérios de diagnóstico e orientações de tratamento. A entidade estima que cerca de 25 milhões de pessoas no mundo possam ter essa forma de diabetes.

Por que a doença está ligada à desnutrição?

A explicação está relacionada à formação do pâncreas e às células responsáveis pela produção de insulina. A hipótese é que pessoas que passaram por uma desnutrição severa, principalmente durante a gestação ou nos primeiros anos de vida, podem ter desenvolvido uma quantidade menor de células beta, que ficam no pâncreas e produzem insulina.

A insulina é o hormônio responsável por ajudar a glicose — o açúcar presente no sangue — a entrar nas células e ser utilizada como fonte de energia. Quando o organismo não produz quantidade suficiente desse hormônio, a glicose se acumula no sangue e surge a hiperglicemia, ou seja, o nível elevado de açúcar no sangue.

No diabetes tipo 5, a produção de insulina é reduzida, mas não desaparece completamente. Essa diferença ajuda a explicar por que a condição não costuma provocar cetoacidose diabética, uma complicação grave mais associada ao diabetes tipo 1 descompensado.

Tipo 5 pode ser confundido com diabetes tipo 1

Uma das dificuldades é justamente distinguir as duas condições. O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune. Isso significa que o próprio sistema imunológico passa a atacar as células do pâncreas responsáveis pela produção de insulina. Com o avanço da doença, a produção do hormônio pode praticamente desaparecer, fazendo com que o paciente precise de insulina para sobreviver.

Já no tipo 5, existe uma reserva de produção de insulina, embora insuficiente para manter a glicose sob controle. Os dois também podem aparecer em pessoas jovens e magras. No entanto, enquanto o tipo 1 está relacionado à autoimunidade, o tipo 5 está associado principalmente a um histórico de desnutrição.

É justamente nessa sobreposição que podem ocorrer diagnósticos equivocados. "No Brasil, não temos dados de prevalência de diabetes tipo 5. Talvez existam casos, mas possivelmente estejam rotulados como DM1 por causa da sobreposição de características, como a idade precoce de aparecimento do diabetes e o baixo IMC", explica o médico Fernando Valente, diretor da Sociedade Brasileira de Diabetes.

IMC é o índice de massa corporal, uma medida calculada a partir do peso e da altura. Ele é usado como um dos indicadores para avaliar se uma pessoa está abaixo, dentro ou acima da faixa considerada adequada de peso.

E qual é a diferença para o diabetes tipo 2?

Nesse caso, a distinção costuma ser mais evidente. O diabetes tipo 2 está fortemente associado ao sobrepeso e à obesidade. Nessa forma da doença, o organismo produz insulina, mas passa a responder menos ao hormônio, processo conhecido como resistência à insulina. O tipo 5 segue uma lógica diferente: atinge principalmente pessoas jovens e muito magras, com histórico de desnutrição.

Estudos indicam que o diabetes relacionado à desnutrição é mais frequente em países de baixa e média renda e pode atingir especialmente populações rurais. Índia, Tailândia, Uganda, Etiópia e Nigéria estão entre os países onde a condição tem sido mais estudada.

Como será o rastreamento no Brasil?

O modelo ainda está em discussão. De acordo com Hermelinda Pedrosa, o escore utilizado há mais de 30 anos precisa ser atualizado para refletir diferentes situações encontradas atualmente. A proposta discutida no Brasil é deixar de utilizar apenas um sistema de pontuação e adotar uma lista de critérios para identificar pessoas que precisam ser investigadas.

Entre as mudanças em discussão estão a ampliação dos limites de idade e do IMC utilizados no rastreamento. A proposta considera, por exemplo, pessoas com menos de 50 anos e IMC abaixo de 22 kg/m², além de outros fatores relacionados ao histórico nutricional e à presença de hiperglicemia.

A definição ainda será consolidada nas próximas discussões do grupo de trabalho da IDF. Para Hermelinda, o Brasil pode assumir um papel de pioneirismo nesse processo. "O Brasil teria esse papel de vanguarda, de iniciar a busca por essas pessoas com um rastreamento atualizado", comenta. 

A ideia é importante porque a desnutrição não está restrita a uma única região brasileira. Apesar dos avanços do país no combate à fome, ainda existem bolsões de insegurança alimentar e desnutrição, especialmente no Norte e no Nordeste, além de áreas de outras regiões.

Por que o diagnóstico correto importa?

Identificar o tipo de diabetes não é apenas uma questão de nomenclatura. O diagnóstico interfere diretamente na escolha do tratamento. Uma pessoa com diabetes tipo 5 pode precisar de insulina para controlar a glicose, mas também necessita de atenção especial ao estado nutricional, com reposição adequada de calorias, proteínas, vitaminas e minerais.

O uso inadequado de insulina também pode provocar hipoglicemia, quando a quantidade de açúcar no sangue fica muito baixa. Níveis abaixo de 70 mg/dL já são considerados hipoglicemia; quedas mais acentuadas podem causar alterações de consciência e exigir ajuda de outra pessoa.

Segundo Hermelinda, casos de uso inadequado de insulina já estiveram relacionados a mortes em países de baixa e muito baixa renda.

Por outro lado, deixar a glicose elevada por muito tempo também traz riscos. O diabetes sem controle pode provocar lesões nos vasos sanguíneos e nervos, aumentando o risco de retinopatia, que pode comprometer a visão; doença renal; neuropatia, que afeta os nervos; além de problemas cardiovasculares e amputações. "Essa busca tira a 'invisibilidade' do agora chamado DM Tipo 5", afirma Hermelinda.

O que muda com a nova classificação?

A expectativa dos especialistas é que o reconhecimento do tipo 5 estimule mais pesquisas e ajude os profissionais de saúde a identificar pacientes que hoje podem estar classificados como portadores de outros tipos de diabetes.

A endocrinologista também considera que a mudança pode aproximar o diagnóstico da realidade de pacientes que, por anos, permaneceram sem uma classificação adequada. "As pessoas com DM Tipo 5 receberiam um tratamento adequado e teriam mais chances de controle e prevenção de complicações", conclui Hermelinda.

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postado em 27/08/2026 20:56
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