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Mulheres com filhos apostam 1,6 vez mais que as sem filhos, diz estudo

Pesquisa mostra que 42% das brasileiras já apostaram; entre as que jogam atualmente, 72% são mães. Estudo também aponta impactos das bets no orçamento, nas relações familiares e na saúde mental

O relatório Mulheres & Bets, produzido pelo estúdio CLARICE em 2026, analisa o impacto profundo e desproporcional das apostas online na vida das brasileiras -  (crédito: Pixabay)
O relatório Mulheres & Bets, produzido pelo estúdio CLARICE em 2026, analisa o impacto profundo e desproporcional das apostas online na vida das brasileiras - (crédito: Pixabay)

Mulheres com filhos apostam cerca de 1,6 vez mais do que mulheres sem filhos, segundo a pesquisa nacional Mulheres e Bets: o custo das apostas online para as brasileiras e suas famílias, divulgada em agosto de 2026 pelo Estúdio Clarice, em parceria com a Estratégia Latina e o Instituto de Pesquisa IDEIA. O levantamento mostra que a relação das brasileiras com as plataformas de apostas vai além do entretenimento e alcança justamente um espaço central da vida familiar: o dinheiro da casa.

Ao todo, 42% das mulheres brasileiras afirmam que já apostaram em plataformas online. Desse grupo, 20% são apostadoras atuais, com diferentes frequências, e 22% são ex-apostadoras. Entre as mulheres que continuam jogando, 72% têm filhos.

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O resultado chama atenção porque ocorre em um cenário no qual as mulheres também relatam forte pressão financeira. Segundo o estudo, 64% dizem que o custo de vida aumentou no último ano, enquanto 56% afirmam estar endividadas. Entre as endividadas, 56% dizem que a dívida atual é maior do que a registrada no ano anterior.

A pesquisa considera como “bets” as plataformas de apostas de quota fixa regulamentadas pela legislação brasileira, incluindo apostas esportivas, cassinos virtuais e jogos de sorte instantânea, como os chamados crash games. Os termos “vício” e “dependência”, usados no levantamento, representam a percepção das próprias entrevistadas e da opinião pública, e não diagnósticos médicos.

Aposta entra no orçamento de quem administra a casa

A relação entre apostas e orçamento doméstico ganha outra dimensão quando considerada a responsabilidade financeira dentro das famílias. Mais da metade das mulheres, 52%, afirma ser a principal responsável pela administração do dinheiro da casa. Entre as prioridades estão a compra de alimentos, citada por 68%, e o pagamento de contas como água, luz, gás e internet, mencionado por 65%.

Ainda assim, entre as apostadoras, aparecem situações em que o dinheiro destinado a outras necessidades foi comprometido para manter o jogo. 12,9% afirmam ter recorrido ao cartão de crédito ou ao cheque especial, enquanto 8,6% utilizaram dinheiro de alguma reserva bancária.

Outras 8,1% deixaram de pagar alguma conta e 5,7% pediram dinheiro emprestado. Em situações mais graves, 4,8% ficaram inadimplentes e 4,3% disseram ter deixado de comprar comida. Para 2,9%, o corte atingiu algo destinado aos próprios filhos.

O levantamento também mostra que o impacto não fica restrito a quem aposta. 12% das brasileiras nunca apostaram, mas dizem ser diretamente afetadas pelas apostas de parentes ou amigos próximos. Somadas às mulheres que apostam ou já apostaram, 54% das brasileiras relatam ter sentido algum efeito direto desse fenômeno.

Entre as mulheres impactadas pelas apostas de terceiros, 14,4% dizem que a família precisou pedir dinheiro emprestado e a mesma proporção relata ter deixado de pagar alguma conta. Para 9,8%, a renda ou o orçamento doméstico foi prejudicado. Há ainda relatos de uso de cartão de crédito ou cheque especial (9,1%) e até de empréstimos com agiotas (7,6%).

Quando a aposta aparece como alternativa de renda

O dinheiro também aparece entre os principais motivos que levam as mulheres a apostar. 21,5% das apostadoras dizem jogar em busca de uma renda extra, enquanto 18,7% afirmam fazê-lo para ganhar dinheiro rapidamente. Outras 15,8% apostam para complementar a renda e ajudar nas despesas básicas da casa e 11,5% para quitar uma dívida.

A pesquisa também identificou uma percepção de habilidade e controle entre parte das jogadoras. 25% das mulheres concordam que, para vencer nas apostas, é preciso ser habilidoso. Entre as apostadoras frequentes, esse percentual sobe para 40,5%.

Já entre as apostadoras frequentes, 58% consideram que apostar está “totalmente sob controle” em suas vidas. Ao mesmo tempo, apenas 20% reconhecem que o jogo representa um problema muito grave naquele momento.

Cassinos virtuais são preferência entre elas

As modalidades escolhidas também diferem dentro do universo das apostas. Entre as mulheres que apostam, 49% afirmam jogar em cassinos online, que incluem roleta, caça-níqueis e jogos como o chamado “Tigrinho”.

Na sequência aparecem os jogos de sorte instantânea, como o Aviator e outros crash games, mencionados por 29%, e as apostas em futebol, citadas por 26%. O horário também chama atenção. 30% das mulheres dizem apostar mais à noite ou de madrugada, proporção superior à registrada entre os homens, de 20%.

As plataformas digitais aparecem não apenas como espaço para apostar, mas também como porta de entrada para o jogo. Entre as mulheres, 24% conheceram as apostas por meio das redes sociais, 23% por grupos de amigos e 18% por influenciadores digitais.

Familiares foram responsáveis pela apresentação para 14% das entrevistadas, enquanto 9% chegaram às apostas por meio do parceiro ou cônjuge. Depois do primeiro acesso, 79% das mulheres afirmam ter passado a receber mais conteúdos relacionados a apostas nas redes sociais. Para 72%, a publicidade das bets contribui para que as pessoas apostem mais do que deveriam.

O marketing de indicação também aparece no levantamento: 37% das apostadoras dizem já ter recebido algum benefício financeiro ou bônus para recomendar uma plataforma a outras pessoas.

Ansiedade, conflitos e violência

Os efeitos relatados pelas entrevistadas não se limitam às finanças. Entre as mulheres que começaram a apostar, 20% relatam ter experimentado ansiedade, 11% depressão e 9% crises de pânico, insônia ou sensação de coração acelerado.

O reconhecimento de dependência aparece em 12% dos relatos, enquanto 11% mencionam perda de controle. O impacto também chega às relações familiares. Entre as mulheres que não apostam, mas são afetadas pelo comportamento de pessoas próximas, 24,2% relatam conflitos familiares, 23,5% mencionam perda de confiança e 20,5%, desgaste emocional.

Em uma dimensão ainda mais grave, 23% dos brasileiros dizem conhecer ou ter presenciado alguma situação em que as apostas contribuíram para casos de violência dentro da família. Entre aqueles que apostam com frequência, o percentual chega a 46%. Entre as mulheres, o índice é de 26% entre as pardas.

Vergonha é uma das principais barreiras para pedir ajuda

Apesar dos impactos, poucas mulheres procuram ajuda para interromper as apostas. Apenas 13% das brasileiras que apostam ou já apostaram afirmam ter pedido ajuda. Outras 9% disseram que quiseram pedir, mas não o fizeram.

Entre as que desistiram de buscar auxílio, a principal barreira é a vergonha: 65% das mulheres apontam esse sentimento como motivo, contra 50% dos homens. Além disso, 23% afirmam não ter a quem recorrer.

Entre as mulheres impactadas, por outro lado, há uma tentativa de intervenção dentro de casa. 73% dizem já ter alertado o apostador sobre os riscos das apostas.

Para quem conseguiu parar, os principais motivos foram perceber que não estava obtendo os ganhos esperados (28%) e considerar o risco financeiro alto demais (24%). Depois de abandonar as apostas, os sentimentos mais relatados foram tranquilidade (28%) e alívio (24%).

Mulheres são mais críticas às bets

A percepção sobre as apostas também apresenta uma diferença significativa entre homens e mulheres. 62% das mulheres defendem a proibição das casas de apostas, contra 50% dos homens. No conjunto da população, 56% apoiam a proibição total das bets no país. A rejeição também aparece em diferentes grupos políticos, segundo a pesquisa.

Outro dado chama atenção: 74% das mulheres nunca ouviram falar do Sistema de Autoexclusão do governo, ferramenta criada para permitir que o usuário se exclua das plataformas de apostas. No total da população, o desconhecimento chega a 71%.

Entre as mulheres, 41% defendem que as casas de apostas continuem funcionando, mas com proibição total de publicidade.

Para as autoras do estudo, as bets conseguiram vencer, até agora, uma espécie de “disputa de imaginação” ao associar as apostas à possibilidade de conquistar dinheiro rápido e alcançar uma vida mais digna. A mudança desse cenário, segundo elas, passa por alterar a forma como o problema é apresentado à sociedade: menos como uma escolha individual e mais como um fenômeno com consequências financeiras, emocionais e familiares.

Entre os caminhos apontados estão dar visibilidade ao impacto das apostas sobre as mulheres, discutir os conflitos provocados dentro das famílias, ampliar a proteção de crianças e adolescentes, questionar estratégias de divulgação que apresentam os jogos de azar como uma forma de ganhar dinheiro e fortalecer a voz de quem defende medidas mais rígidas para o setor.

A pesquisa foi realizada entre junho e julho de 2026, em duas etapas. A fase qualitativa reuniu entrevistas simultâneas em tríades ao longo dos meses de junho e julho. Já a etapa quantitativa, de abrangência nacional, teve o questionário aplicado nos dias 8 e 9 de julho de 2026.

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postado em 27/08/2026 17:35 / atualizado em 27/08/2026 17:44
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