Nova Jersey — Carlo Ancelotti era a Itália na Copa do Mundo. Enquanto a Azzurra assistia ao torneio pela televisão pela terceira edição consecutiva, o técnico da Seleção Brasileira carregava as expectativas de um país acostumado a vê-lo vencer. O vice-campeão mundial de 1994 como auxiliar de Arrigo Sacchi e vitorioso por Milan, Chelsea, Real Madrid, Bayern de Munique e Paris Saint-Germain, fracassou na missão de levar o Brasil ao hexacampeonato, mas a eliminação para a Noruega não mudou a percepção de quem o acompanha há décadas.
Três jornalistas italianos ouvidos pelo Correio defendem a permanência do compatriota e veem na falta de tempo e na transição da geração as principais explicações para a decepcionante campanha brasileira, com a eliminação nas oitavas de final para a Noruega. Há consenso de que o treinador continua sendo o nome ideal para conduzir a reconstrução da Seleção. A principal crítica recai sobre a insistência em Neymar, considerada um equívoco que pesou na caminhada rumo ao Mundial.
O pouco tempo de trabalho é o principal atenuante apontado pelos três jornalistas. Para Paolo Tomaselli, do jornal Corriere della Sera, a adaptação de Ancelotti ao futebol de seleções pesou tanto quanto o calendário apertado. Entretanto, o jornalista avalia que o Brasil chegou para a caça ao hexa sem diversidade e qualidade de peças e recorreu a um elenco que ainda não estava pronto para suportar a pressão.
“O Brasil também teve um pouco de azar com os desfalques. Rodrygo, Estêvão e Wesley ficaram fora. Depois, Raphinha e Paquetá se machucaram. São jogadores importantes. Todos eram potenciais titulares. Isso fez com que o Brasil chegasse à Copa com um time lento, um pouco envelhecido e com jogadores que saíram do banco. Talvez ainda não estivessem prontos para lidar com esse nível de tensão e pressão”, analisa.
O maior questionamento de Tomaselli recai sobre a gestão do caso Neymar. Para ele, o erro não foi a convocação em si, mas a insistência em esperar pela recuperação do camisa 10 mesmo após a lesão. O jornalista entende que, naquele momento, a decisão deixou de ser exclusivamente técnica.
“O que me surpreendeu não foi tanto a convocação de Neymar, mas o fato de terem esperado por ele depois da lesão. Se você deixa de fora um jogador como João Pedro, significa que precisava levar Neymar para agradar alguém ou simplesmente a opinião pública. Quando percebi que Neymar não estava em nível para disputar uma Copa do Mundo, entendi que aquela era uma convocação política”, compartilha.
Apesar das críticas, o jornalista italiano absolve Ancelotti da responsabilidade pela eliminação e acredita que o treinador continua sendo o nome ideal para conduzir a reconstrução da Seleção. “Mas um treinador sozinho não basta. Acredito que ele continua sendo o homem certo, mas os jogadores mais jovens precisam evoluir rapidamente. Também será preciso reconstruir uma espinha dorsal, porque Alisson, Danilo, Casemiro e outros veteranos não estarão mais na próxima Copa.”
Para Tomaselli, a discussão também precisa ir além do banco de reservas. O jornalista vê um Brasil ainda preso à memória das grandes gerações e defende uma leitura mais realista do cenário atual do futebol mundial. “Todos nós ainda pensamos no Brasil de 1970, no Brasil de Ronaldinho e Ronaldo, no Brasil campeão de 2002. Mas o futebol mudou. A geografia do futebol mudou muito. Talvez seja preciso um pouco mais de racionalidade e também um pouco mais de humildade. Dizem que o Brasil perdeu a identidade. Dizem o mesmo da Itália. A verdade é que são necessários bons jogadores. O futebol é mais simples do que mil discursos”, atesta.
A análise de Gianluigi Bagnulo, repórter da emissora Sky Sports, parte de outra perspectiva. Na Itália, havia a expectativa de que Ancelotti fosse capaz de extrair do Brasil um desempenho superior ao apresentado na Copa do Mundo. O prestígio do treinador no país, segundo ele, alimentou a esperança de uma campanha mais longa. “Na Itália, existe um mito em torno dele. Sempre há a sensação de que ele consegue tirar algo a mais de qualquer equipe, mesmo quando o elenco não é o mais forte”, revela.
A expectativa era tamanha que o cineasta italiano Paolo Sorrentino, vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional em 2014 com A Grande Beleza, acompanhava Ancelotti durante a Copa para um documentário sobre os 50 anos de carreira no futebol. Para Bagnulo, porém, a eliminação precoce não altera o legado do compatriota.
Para Bagnulo, assim como a Itália, o Brasil atravessa um período de transição e não reúne uma geração de craques capaz de decidir jogos apenas pelo talento individual. “Os brasileiros precisam se acostumar com a ideia — e sei que não é fácil, porque também não é para nós italianos — de que o Brasil já não é mais o de antigamente. O futebol muda. A geografia do futebol muda. Algumas seleções crescem, outras entram em declínio, e neste momento o Brasil vive uma fase descendente.”
Ainda assim, Bagnulo acredita que a eliminação não muda a trajetória de Ancelotti nem compromete o projeto iniciado pela CBF. Na avaliação dele, o treinador merece cumprir o contrato renovado até a Copa de 2030.
“Essa eliminação não muda nada na carreira de Ancelotti. Ele assumiu justamente a seleção mais badalada do momento, mas não tem uma geração de fenômenos. Eu daria pelo menos mais dois anos para ele. Estamos falando de um gigante do banco de reservas.”
A visão de Francesca Benvenuti, do Sport Mediaset, é mais otimista. A jornalista acredita que a eliminação não compromete o projeto iniciado por Ancelotti e vê no italiano o perfil ideal para conduzir a reconstrução da Seleção. Para ela, o treinador soube administrar alguns dos maiores vestiários do futebol mundial e ainda reúne as credenciais necessárias para recolocar o Brasil entre os protagonistas.
“Acredito que Carlo Ancelotti representa uma garantia para a Seleção. A capacidade dele de gerir estrelas é única e o temperamento tranquilo é ideal para lidar com as pressões que acompanham a Seleção.”
Assim como os colegas, Francesca faz uma ressalva em relação ao ciclo encerrado. Na avaliação dela, Ancelotti tomou decisões influenciadas pelo ambiente externo, especialmente no caso de Neymar, mas considera que o próximo ciclo tende a ser mais corajoso.
“Também acredito que, para a primeira Copa do Mundo, ele fez algumas escolhas muito populares e talvez isso tenha acabado sendo algo negativo. Refiro-me a Neymar, por exemplo. Mas, se foi um erro, certamente nasceu de um amor excessivo.”
Apesar da eliminação, a jornalista demonstra confiança no futuro da equipe. “De modo geral, acredito que o futuro da Seleção está em excelentes mãos. As decisões futuras certamente serão mais ousadas e, para vários grandes nomes, um ciclo chegou ao fim naturalmente”, conclui Benvenuti.